No permanente desafio que é viver: eis o cuidado enquanto prática! – #GEPeSPComenta

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O que é o jogo “Baleia Azul”? O que faz com que os jovens se interessem por esse tipo de jogo? Por que se tem falado tanto na mídia sobre desafios virtuais que podem levar a morte de um jovem ou adolescente? Estas perguntas se tornaram alvo do debate público e midiático. A discussão desnuda o próprio despreparo da imprensa em tratar do tema – suicídio – considerado, por muitos anos, um assunto proibido nas páginas jornalísticas pelo seu sugerido potencial de contágio social. O jogo também virou assunto nos grupos de pais e nas rodas de conversa entre amigos. As constatações e a curiosidade parecem girar em torno de “meu filho não pode jogar” ou “como distanciar nossos jovens de tal ameaça?”. A estrutura do jogo “Baleia Azul”, específico das redes sociais e em grupos fechados, dificulta o conhecimento e o contato sobre o conteúdo. Apesar de pouco se saber sobre o jogo, uma coisa é certa: “é preciso mantê-lo distante”.

O debate sobre o jogo também acendeu uma discussão paralela em torno da série “13 Reasons Why”, já considerada uma das mais populares do ano. A narrativa aborda temas como bullying, depressão e o suicídio de uma adolescente. O seriado divide opiniões sobre os limites do que deve ser mostrado em uma produção cinematográfica diante de possíveis impactos negativos e, sobretudo, se destaca pelo tom de culpabilização coletiva diante de um suicídio. “Assistir ou não assistir?”, “O seriado exagera na forma de tratar os temas?”, “Como se pode falar de suicídio assim?”. Em boa parte das argumentações, o que parece estar em evidência são as repercussões da série – não muito diferente do caso do jogo “Baleia Azul”. Em contrapartida, o sofrimento que a depressão, o bullying e o suicídio podem produzir acaba em um segundo plano. Nesse sentido, é notório que a atenção dada tanto ao jogo quanto à série não é suficiente para alcançar a complexidade que envolve tratar dessas temáticas.

A busca por culpados também ocupa um espaço de destaque nesse contexto. “Onde os pais erraram?”, “É tudo culpa da falta de atenção e tempo?” e outras tantas constatações restringem o debate a encontrar um culpado, seja na família, na escola, ou no próprio jovem ou criança. Para mim, diante deste cenário, o maior desafio de todos parece ser exatamente como “conviver” = viver-com… Viver com o outro, cuidar do outro, cuidar de si e estar junto, exatamente, culpando menos. Seguindo os pensamentos de Michel Foucault, o cuidado não se dá de maneira ensimesmada, mas numa corrente relação de produção de sujeitos. Em outras palavras, viver é uma produção de mundo, ou seja, em nossa busca de viver, criamos o mundo em que vivemos. Por isso, como indica Foucault “as possibilidades são indefinidas de transformação do sujeito”[1], logo aposta-se, aqui, que é na construção do diálogo que transformações dos contextos atuais podem ser possíveis.

É fato que o jogo e o seriado não ganharam toda essa repercussão à toa. É preciso olhar esses assuntos com mais cuidado e atenção: a sociedade (pais, jovens, educadores, mídia e profissionais de saúde) deve falar com responsabilidade sobre suicídio. E discutir não é mantê-lo distante e velado, porém construir um canal de diálogo, sem deixar rasa a argumentação. Em outras palavras, é preciso reiterar que a atenção dada ao assunto é insuficiente, deixando uma lacuna a perguntas, como: Que sociedade é esta em que a individualização e o egoísmo não só promovem uma fragmentação das redes de relações, como ainda culpa os que estão lidando diretamente com a dor de pensar em se matar? “Como pode um jogo e uma série demonstrarem os dias vazios em que vivemos? Como pode, jovens se violentarem, se fecharem em si? Como podem jovens clamarem por socorro e não sejam vistos e ouvidos? As questões são inúmeras até porque o momento nos impõe refletir: um interessante exercício de diálogo é buscar sair das certezas e, na dúvida, vislumbrar alternativas. Alternativas que não sejam verdades absolutas, mas indicativos do “viver-com”.

É possível falar das agruras da vida e não se sentir julgado ou mesmo menosprezado por assumir as próprias dores. O sofrimento psicológico é algo mais comum do que se pensa: ninguém é pior por assumir que sofre, ao contrário, sofrimento é, de fato, tão legítimo quanto a felicidade. A construção de uma rede de acolhimento do sujeito que sofre não é apenas uma tarefa do profissional de saúde. Todos nós podemos aprender a perceber, ouvir e acolher o sujeito em sofrimento emocional. É um grande desafio que a vida nos convida diariamente!

 

Janice do Carmo Demuner Magalhães

Pesquisadora Regional do GEPeSP

 

Notas:

[1] FOUCAULT, M. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo. Martins Fontes. 2004.