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O Facebook e o suicídio – #GEPeSPComenta

O Facebook está mais uma vez envolvido em polêmicas sobre o conteúdo veiculado em sua rede. Segundo material interno da empresa, divulgado pelo jornal inglês The Guardian [1], há uma diferença grande entre o que é descrito para os usuários como a política de conteúdo do site e as recomendações feitas para o grupo de moderadores de conteúdo.

 

Entre as políticas de conteúdo do Facebook [2], destacamos: “Não permitimos a promoção da autoflagelação ou do suicídio. Também trabalhamos com organizações no mundo todo para oferecer assistência a pessoas em dificuldade. Proibimos conteúdos que promovem ou encorajam o suicídio ou qualquer outro tipo de autoflagelação, incluindo automutilação e distúrbios alimentares”.

 

Apesar disso, os documentos revelados pelo jornal dão recomendações diferentes para os moderadores: “Nós não queremos censurar ou punir pessoas em desespero que estejam tentando suicídio. Especialistas nos disseram que o melhor para a segurança dessas pessoas é deixar a transmissão ao vivo acontecer enquanto eles estejam engajadas com a audiência”

 

Esse posicionamento contraria todas as orientações de prevenção ao suicídio apresentadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) [3] e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) [4], dirigidas aos profissionais da Imprensa.  É no mínimo preocupante que um site de tamanha importância no contexto atual trate uma questão tão séria de modo tão irresponsável. Em resposta, o Facebook disse que especialistas guiaram as recomendações de conteúdo seguidos pelos moderadores. Contudo, em momento algum a identidade desses especialistas e as bases para suas recomendações são informadas.

 

Segundo a própria empresa, a série 13 Reasons Why estaria por trás do aumento repentino em cenas de automutilação veiculadas no Facebook: “No ano passado, os moderadores reportaram 4.531 casos de automutilação a cada duas semanas — a empresa afirma que o número a cada duas semanas já ultrapassou 5 mil neste ano. O Facebook acredita que o crescimento está relacionado ao 13 Reasons Why, um seriado da Netflix que trata do suicídio de uma estudante. Os moderadores da rede social foram orientados a reportar qualquer publicação que tenha relação com a série.”

 

O Facebook se mostra sensível ao efeito causado possivelmente pela série. Porém, a Instituição não pode tratar o tema da valorização da vida de pessoas “com dois pesos e duas medidas”. É preciso tratar o conteúdo que é veiculado em suas páginas da mesma forma. Abrir o tema para discussão, ouvir especialistas, informar suas políticas por meio de pesquisas criteriosas são passos fundamentais para se criar políticas de conteúdo que respeitem os direitos humanos e evitem o possível efeito contágio.

 

 

Fontes:

[1] https://www.theguardian.com/news/series/facebook-files

[2] https://www.facebook.com/communitystandards#self-injury

[3] http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/67604/7/WHO_MNH_MBD_00.2_por.pdf

[4] http://www.abp.org.br/portal/imprensa/manual-de-imprensa/