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A “Cracolândia” e a internação indiscriminada compulsória – #GEPeSPComenta

Quando falamos sobre “política de drogas” poucos consensos são possíveis. Mesmo em grupos aparentemente homogêneos, há diferenças consideráveis sobre as opiniões e percepções acerca das drogas, bem como de seus usuários e vendedores.

Apesar disso, na última semana, uma ação policial realizada na área conhecida como “Cracolândia” em São Paulo reacendeu o debate sobre esse tema. Segundo o prefeito João Dória, a operação policial seria o primeiro passo de para acabar com a “Cracolândia” [1] e inicializar um processo de revitalização do local, que passaria a se chamar “Nova Luz”.

A polêmica operação expulsou moradores, usuários e traficantes de drogas. Além de cimentar a entrada de estabelecimentos, como alguns hotéis utilizados para hospedar os usuários de crack (programa da gestão do prefeito anterior) e fez demolições em prédios que estavam ocupados, o que resultou em pessoas feridas. A operação policial teve cobertura da imprensa e gerou comoção nacional, além de um debate polarizado entre os que apoiavam e os que criticavam a atuação da prefeitura e da polícia. Para além da operação policial, o caso ganhou ainda mais repercussão após a prefeitura do município entrar com um pedido coletivo de internação compulsória indiscriminada para os usuários que residiam no local.

A crítica ao pedido foi capaz de gerar consenso mesmo em grupos que acreditam em soluções distintas para lidar com o problema. O médico Drauzio Varela em um vídeo [2] publicado em sua rede social desmente a fala atribuída a ele pelo prefeito João Dória. E defende que a decisão pela internação compulsória deve ser utilizada apenas em casos individuais, com a avaliação de um médico competente.

Para a psicóloga Clarice Madruga [3], que conduziu uma pesquisa no local sobre o perfil e o histórico de consumo de drogas dos frequentadores da Cracolândia, a operação policial cumpre um papel importante ao enfraquecer o poder do tráfico de drogas no local. Mas, no que diz respeito à internação compulsória ela afirma que “é terrível que tenha sido falado de internação em massa, porque isso boicotou as tentativas de abordagem social, de acolhimento.” A psicóloga defende que a internação compulsória pode ocorrer apenas em casos individuais e de acordo com os procedimentos judiciais já previstos em situações como essa.

O neurocientista americano Carl Hart [4] afirmou que a ação de tratamento obrigatório para usuários de crack é “ridícula”. O neurocientista que estuda o tema há cerca de 20 anos considerou que a ação da polícia indica uma falta de compaixão da gestão com os usuários de drogas. E sobre a forma de abordar os usuários Hart defende que “embora usem crack, muitas pessoas não são viciadas e têm outros problemas: psiquiátricos, relacionados à pobreza”. Para ele é preciso desenvolver uma política de atendimento adequada para as necessidades de cada pessoa.

Além da dependência química, outras questões psicossociais e de saúde precisam ser considerados ao traçar estratégias para aquela população. No estudo de Madruga ela destaca uma série de doenças, como as sexualmente transmissíveis que acometem aquela população. No que tange a saúde mental, 57,9% dos entrevistados relataram ideação suicida.

As condições sociais são outro agravante. Os frequentadores do local muitas vezes são pessoas que vivem nas ruas em situação de rua ou em moradias precárias. Muitas dessas pessoas estão desempregadas e sem perspectiva de vida. Portanto, a miséria é um traço marcante do local, e que assola a trajetória de vida de muitos dos usuários, mesmo antes do início do consumo de crack.

Também é relevante a exposição à violência no local, praticada pelo tráfico de drogas. Soma-se ainda a violência do Estado, muitas vezes praticadas nas operações policiais no local. Além dos crimes que ocorrem na região como roubos, furtos e agressões.

Portanto, uma política pública para atender essa população precisa ser concebida de forma completa, considerando que o problema da Cracolândia não se esgota somente na dependência química. E principalmente, que respeite a autonomia do indivíduo, tal como os princípios que regem uma sociedade democrática.

 

Por Fernanda Cruz

 

Fontes:

[1]http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-05/operacao-policial-foi-primeiro-passo-para-acabar-com-cracolandia-diz-alckmin

[2] https://www.facebook.com/drauziovarella/videos/1673382889343375/

[3]http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40067399?ocid=socialflow_facebook

[4] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40039961