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Frequência à igreja, espiritualidade, redes sociais, doenças mentais e tentativas de suicídio.

Os resultados de uma pesquisa cujos resultados foram publicados em 2009 adiantou o nosso conhecimento a respeito das relações entre religião, espiritualidade e o comportamento suicida.
Essa pesquisa produziu contribuições relevantes:
• Para começar, uma amostra representativa, nacional, da população do Canadá. Devido aos custos de obter dados de uma amostra nacional, a grande maioria das pesquisas trabalha com amostras não representativas;
• Foi realizada no Canadá e não nos Estados Unidos, onde é realizado o grosso das pesquisas;
• Contribuiu para deslindar o conjunto de conceitos associados sob o manto maior, a religião;
• Contribuiu para deslindar o conjunto de conceitos associados sob o manto maior, o suicídio;
• Contribuiu para esclarecer as relações entre esses dois conjuntos e seus componentes;
• Contribuiu para salientar a importância da religião como um fator social e a relevância das redes sociais que se formam a partir da religião e da espiritualidade;
• Através dessas contribuições revive o conceito e a importância da Sociologia da Religião.
Os autores estão conscientes de que não partiram de zero, de que há uma rica bibliografia empírica que associa a religião e a espiritualidade, por um lado, e a saúde física e mental, pelo outro.
Numa pesquisa com base em questionários, é possível analisar vários conceitos associados com o suicídio, mas não o suicídio. Os dois principais são as ideações suicidas e as tentativas de suicídio. Não são iguais, embora se correlacionem, e suas correlatas tampouco são iguais.
O mesmo acontece com os conceitos associados com a religião e a espiritualidade.
A auto identificação, simples e pura, como uma pessoa espiritual se associava com um risco menor de tentar o suicídio. O risco era, aproximadamente, 35% menor entre as pessoas que se identificavam como espirituais do que entre as pessoas sem essa identificação. Porém, ao ajustar essa associação por apoio social, pelos vínculos sociais, pelo pertencer (ou não) a redes sociais, a risco entre as pessoas passa a ser igual. Como os dados foram organizados a partir de informações obtidas no mesmo momento, não há como sequer sugerir causalidade. Violando essa prudência em nome da congruência teórica e da consistência com os resultados de muitas outras pesquisas, a conclusão possível seria de que considerando as religiões como organizações, as redes sociais associadas a elas não podem ser deixadas de fora da definição, sob pena de perder poder explicativo. As ovelhas se relacionam entre si e formam rebanhos.
O impacto da espiritualidade sobre a redução do risco de tentar o suicídio é social – toda a associação observada entre a identificação espiritual e o risco de tentar o suicídio passa pelas redes sociais das pessoas.
E a frequência à igreja, templo ou equivalente? Ela reduz muito o risco relativo de tentar o suicídio (62% menos) e essa associação não desaparece mesmo quando fazemos ajustes baseados nas diferenças de apoio social, de contato social.
Arriscando uma conclusão (indo além da prudência dos autores), as pessoas espirituais que não vão à igreja ou equivalente dependem de contatos sociais para receber as mensagens cujo efeito é reduzir o risco de suicídio.
E as doenças mentais? Afinal, várias pesquisas demonstraram uma associação entre R/E (religião e espiritualidade) e várias doenças mentais, inclusive depressões, no sentido de que a religião e a espiritualidade reduzem o risco dessas doenças e que essas doenças mentais se associam positivamente com o risco de tentar o suicídio.
Não se reproduz aqui o que encontramos entre as pessoas espirituais que estão isoladas dos comportamentos religiosos formais (ir à missa, culto etc.)?
Não.
Após controlar (lembramos: sempre no questionário) o efeito das principais doenças mentais, a frequência à igreja, cultos etc. reduz o risco de tentar o suicídio. Ou seja, a frequência reduz as tentativas tanto entre pessoas consideradas sãs quanto entre pessoas que enfrentam alguma de várias doenças mentais.

 


Os autores dessa pesquisa (e de outras) fazem parte do Swampy Cree Suicide Prevention Team, que inclui cidadãos, membros do Conselho das Tribos de Swampy Cree, pessoal médico no sentido amplo e pessoal acadêmico, associado com universidades seja clinicamente, seja como pesquisadores. Foram impelidos a estudar e lidar com as altas taxas de suicídio entre os membros das tribos do Noroeste de Manitoba, particularmente de jovens. Uma linda iniciativa.
GLÁUCIO SOARES
Pesquisador no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (UERJ) e colaborador do GEPeSP