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Como a França tenta conter uma onda de suicídios de policiais

O Ministério do Interior da França anunciou no domingo (12) que estuda medidas emergenciais para impedir que seus agentes de segurança pública – policiais e guardas – tirem a própria vida.

Num intervalo de apenas cinco dias, entre 7 e 12 de novembro, foram registrados seis suicídios de policiais no país. O mais recente deles, de Antoine Boutonnet, 50 anos, que, por oito anos, chefiou o setor responsável pelo policiamento de torcidas de futebol na França.

Antes de ingressar na polícia, Boutonnet havia trabalhado na Cruz Vermelha Francesa. Ele se matou dentro do local de trabalho, usando a própria arma de fogo. O jornal francês Le Monde afirma, citando fontes anônimas de dentro da polícia, que o oficial estava insatisfeito com sua transferência, em março, para outra divisão.

A morte de Boutonnet se soma a outras 59 registradas em toda a França desde o início de 2017. Para efeito de comparação, 58 policiais se mataram no Estado do Rio de Janeiro num intervalo de 14 anos (1995-2008), de acordo com o Gepesp (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. A população da França é de 67 milhões de pessoas. A do Estado do Rio, 16 milhões.

O ministro do Interior da França, Gérard Collomb, pediu a todos os comandantes de grupamentos policiais que informassem as medidas que estavam sendo tomadas para prevenir os suicídios.

Ele também anunciou que manterá encontros com líderes de sindicatos do setor para discutir medidas a serem implementadas.

Em seguida, prometeu divulgar um pacote de ações preventivas e de amparo aos parentes dos policiais que tiraram a própria vida.

Fenômeno não é novo. Respostas, também não

Não é a primeira vez que as forças de segurança da França enfrentam onda de suicídio entre seus membros. Nos últimos 25 anos, 1.135 policiais tiraram a própria vida no país. Metade deles, com a arma usada em serviço.

Desses mais de mil mortes, quase 80 ocorreram no ano de 2014, na última grande onda de suicídios de policiais franceses.

À época, o então ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, anunciou um pacote de 23 medidas, que incluía a oferta de serviço de apoio psicológico e psiquiátrico a policiais estressados, além da criação de um serviço de discagem telefônica 24 horas, para atender policiais que estivessem precisando conversar anonimamente.

Desta vez, o novo ministro, Collomb, não entregou qualquer plano detalhado, mas fez referência à manutenção e à ampliação das medidas implementadas até então: “Há anos a prevenção de riscos psico-sociais é uma prioridade do Ministério do Interior que, recentemente, reforçou seus dispositivos de detecção de riscos e de resposta, como recrutamento de psicólogos, redinamização das células de apoio, implantação de redes de referência, treinamento de profissionais responsáveis pelo setor etc.”

Qual o contexto da onda de mortes agora

Jornais franceses têm apresentado entrevistas anônimas com policiais que se referem com frequência à existência de um tabu na instituição quando se trata de saúde mental.

De acordo com muitos deles, reportar sintomas de stress, depressão, ansiedade, medo e cansaço é algo visto como sinal de fraqueza na polícia. Por essa razão, é tão difícil detectar “a gota d’água que faz o copo transbordar”, nas palavras de um agente entrevistado pela emissora francesa. “Indicar dificuldades ao próprio chefe não devia ser entendido como um sinal de fraqueza”, disse ele.

“Os policiais e gendarmes têm estado muito mobilizados pela defesa dos outros, nos últimos dois anos”, disse Céline Berthon, secretária-geral do Sindicato dos Comissários da Polícia Nacional. “Pode ser que isso faça com que eles mesmos cuidem menos de si mesmos, ou que tenha levado a um esgotamento.”

Em nota, o Sindicato Unitário das Forças Policiais se referiu à “administração deplorável, falta de reconhecimento do trabalho dos policiais e condições de trabalho execráveis”.

 

Terrorismo e até espancamento de policiais
Manifestantes na França ateiam fogo a carro policial durante protesto

A França tem sido alvo de ataques terroristas recentemente. Em 13 de novembro de 2015, uma série de seis atentados coordenados deixaram mais de 130 mortos na capital, Paris. No dia 14 de julho de 2016, um terrorista atropelou e matou 86 na cidade litorânea de Nice.

A lista de ataques semelhantes é longa no país e as ações – antes executadas com explosivos ou armas de fogo – passaram a ter como estratégia o uso de automóveis comuns, o que tornou a função de prevenção e de vigilância mais difícil e, possivelmente, mais estressante para os agentes envolvidos, nas ruas.

Além do terrorismo, outro foco de tensão são os protestos que, frequentemente, tem policiais como alvo. Em maio de 2016, numa onda de manifestações contra uma das muitas tentativas de reformar as leis trabalhistas na França, policiais tiveram de também sair às ruas para pedir o “fim da fúria contra a polícia”.

Em alguns casos, policiais foram agredidos com barras de ferro nas ruas. Viaturas foram incendiadas com sinalizadores navais. De acordo com o sindicato da categoria, pelo menos 350 agentes foram feridos naquela onda.

No Brasil, ‘estresse, tabu e hierarquia’

O estudo “Por que Policiais se Matam”, conduzido pela Gepesp, sobre suicídios de policiais brasileiros, mostrou que dos 224 policiais militares entrevistados pelos pesquisadores 10% tentaram suicídio, e 22% pensaram em fazê-lo, no Estado fluminese.

Entre as razões apontadas também aparecia, como no caso francês, o tabu em torno de assuntos emocionais e psicológico no interior da polícia.

Além disso, eles também se referiam às escalas de plantão, com longos períodos estendidos – às vezes, por até 24 horas –, agravados pelo fato de muito policiais viverem longe de seus locais de trabalho.

Os policiais brasileiros mencionavam ainda as precárias condições de trabalho e a hierarquia militar rígida, além da disponibilidade de armas de fogo em momentos de depressão.

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/11/13/Como-a-Fran%C3%A7a-tenta-conter-uma-onda-de-suic%C3%ADdios-de-policiais