Negociadores com suicidas

Público Alvo:

Profissionais que atuam na área de segurança pública e segurança privada; profissionais de saúde (psicólogo, médico, enfermeiro e assistente social) e de educação (professores de ensino fundamental e médio).

Modalidade: Presencial

Carga Horária Total do Curso: 12 horas

Número máximo de Vagas oferecidas: 50

Investimento: R$150 reais. 

Professores responsáveis:

Profa. Dra. Alexandra Vicente
Lattes:http://lattes.cnpq.br/4155912968020686

Profa. Dra Dayse Miranda
Lattes: http://lattes.cnpq.br/4642382292915049

Profa. Especialista Rose Carvalho
Lattes: http://lattes.cnpq.br/8135185217198588

Contextualização:

O suicídio é um problema que afeta um número maior de famílias a cada ano. Dados da Organização Mundial de Saúde (2014) indicam que, a cada 40 segundos há um suicídio no mundo, ou seja, mais de 800.000 pessoas morrem todos os anos. No Brasil, o Sistema de Informação sobre Mortalidade (2017) esclarece que cerca de 11.000 suicídios são cometidos todos os anos, sendo a terceira causa de morte entre homens jovens, com idades entre 15 e 29 anos. O país registrou ainda uma elevação significativa da taxa de mortalidade por esse tipo de morte por 100 mil habitantes entre os anos de 2011 e 2015. Se em 2011 foram registrados 10.490 óbitos, em 2015 os números saltaram para 11.736. A taxa de mortalidade que era de 5,3 subiu para 5,7. O estado do Rio de Janeiro, ou por subnotificação, ou por baixa efetivação do ato suicida, apresenta uma média de suicídio abaixo da encontrada no país. Para essa cidade informações do Ministério da Saúde indicam que, por 100 mil habitantes, a média foi de 2,56 mortes entre os anos de 2002 a 2008.

Em situações de tentativa de suicídio no estado do Rio de Janeiro os órgãos de segurança pública são acionados, mais especificamente o Corpo de Bombeiros, e na presença de arma de fogo, a Polícia Militar também é chamada. Na Polícia Militar do Rio de Janeiro a unidade responsável em atuar nessas situações é o Batalhão de Operações Policiais Especiais através da sua Unidade de Intervenção Tática.

Essas instituições já seguem uma doutrina disseminada mundialmente, e construída tendo como referência uma abordagem multidisciplinar, através da psicologia, da psiquiatria, da sociologia e da segurança pública, qual seja, o gerenciamento de crises policiais. Segundo De Souza (1995), gerenciamento de crises é “o processo de identificar, obter e aplicar recursos necessários à antecipação, prevenção e resolução de uma crise”. Júnior e Fhaning (2008) esclarecem ainda que o gerenciamento de crises é uma “metodologia que se utiliza de uma seqüência, muitas vezes, lógica para resolver problemas que são fundamentados em possibilidades”.

O Federal Bureau of Investigation, unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, define que as características de uma crise policial são: imprevisibilidade, compressão do tempo e ameaça a vida. São situações que eclodem e que irão requerer uma resposta diferenciada do que é oferecido pelos órgãos de segurança em suas ações cotidianas. A tentativa de suicídio está assim associada ao contexto de crise policial, pois apresenta os aspectos que exigem ações distintas, por parte do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar, para que se alcance a solução do problema.

A tentativa de suicídio entendida como uma situação de crise, que pode eclodir em qualquer lugar, a qualquer tempo, demandando uma resposta rápida para o salvamento do individuo, sendo então premente o risco de vida, requer a presença de pessoas que saibam o que fazer, e o que não fazer independente de serem, ou não profissionais de segurança pública. As ações iniciais junto ao suicida podem precipitar o ato (quando mal conduzidas), ou podem lhe oferecer mais tempo. Tempo suficiente para que mude de ideia ou para que seja impedido, por profissionais qualificados para isso, de efetivar a ação.

Uma das etapas do gerenciamento de crises é a negociação. Segundo Fisher e Brown, citados por Júnior e Fhaning (2008) “a negociação pode ser entendida como a arte da persuasão”. Eles afirmam ainda que para a negociação ser bem sucedida é necessário “equilíbrio entre razão e emoção, a visão do problema pela ótica do oponente ou da outra parte, a obtenção do máximo de informações sobre o tema e o contexto do conflito, a confiabilidade e a sagacidade”. Assim, em ocorrências com suicidas a negociação tem como objetivo demover o sujeito do ato pretendido, sendo o negociador o responsável por esse processo.

Como um fenômeno complexo, e por isso multidisciplinar, a negociação é a dimensão que permite que profissionais de segurança pública e profissionais de outras categorias se encontrem, e trabalhem para o direcionamento e acolhimento do sujeito em crise.

O comportamento suicida pode ocorrer em vários lugares: escolas, hospitais, shoppings, prédios públicos, estações de trens e estações de metrô, entre outros. Tais locais normalmente oferecem contornos estruturais favoráveis ao ato (por exemplo: altura, alta tensão, profundidade), ou ainda, podem estar carregados de situações geradoras de conflito por conta dos diversos relacionamentos interpessoais presentes (por exemplo: escolas e hospitais). Quando os profissionais desses locais sabem como conduzir uma situação desse vulto, as chances do resgate tornam-se significativamente maiores.

A proposta inovadora do GEPESP e do Instituto Vicente é, então, oferecer uma formação em negociação a segmentos profissionais que, pelo contexto em que atuam estão passíveis de presenciar tentativas de suicídio, quais sejam: professores, médicos, enfermeiros, e profissionais de segurança privada. Esses profissionais terão acesso a conhecimentos da área da psicologia, sociologia, e segurança pública. Do mesmo modo, o curso pretende atingir ainda profissionais de segurança pública. Para esses profissionais, a proposta possibilita aprofundar um tema já presente nas instituições de segurança, favorecendo a proposição de novas estratégias internas de intervenção. Novos dados e conceitos também serão discutidos, principalmente na área da psicologia, agregando contribuições teóricas para a compreensão do comportamento suicida, para a condução do processo de negociação, e conseqüentemente para solução do evento crítico. Serão estudados temas da psicologia jurídica, da psicologia geral, da psicologia social, psicanálise e psicologia do desenvolvimento. Ainda serão vistos temas da psicopatologia e sociologia da violência.

Importante atentar para o fato de que formar segmentos profissionais que não pertencem à segurança pública para atuar como primeiro interventor em ocorrências com suicidas não significa que os mesmos serão os responsáveis pela condução final do caso. As equipes profissionais responsáveis pela direção da ocorrência deverão ser normalmente acionadas (corpo de Bombeiros e Polícia Militar), e estas sim é que serão legalmente responsáveis pela crise, aspecto que não impede uma atuação em conjunto quando houver necessidade, e possibilidade.

Frente a um indivíduo em comportamento suicida e havendo possibilidade de negociar, qualquer profissional estará na verdade diante de alguém que busca aliviar o próprio sofrimento através da morte. Muitos aspectos podem se diferenciar no contexto, como a dimensão, e as características da dor, mas em comum está a percepção da própria incapacidade de cessar o sofrimento. Assim, reunir variados segmentos profissionais responsáveis e comprometidos com a tentativa de evitar a efetivação de um comportamento suicida é, além de gestão de ações e cuidado com o indivíduo, prevenção, pois ao possibilitar a troca de conhecimentos e experiências expande conceitos, desmitifica o tema, e abre espaços para novas agendas de intervenção.

Objetivos

Formar profissionais das áreas de segurança, saúde e educação para atuarem na negociação com suicidas numa perspectiva multidisciplinar, em que serão estudados conteúdos da área da psicologia, sociologia e segurança pública.

 

Metodologia

A metodologia da formação em negociação com suicidas envolve análise de casos e estratégias que integram teoria e prática focalizando o contexto do trabalho do público alvo. Fomentando, assim, habilidades que favoreçam a intervenção na realidade da prática profissional.

 O conteúdo das aulas está estruturado em cinco módulos: O primeiro apresenta os aspectos conceituais do suicídio. O segundo aborda os fundamentos teóricos da gestão de crises junto a suicidas. O terceiro é dedicado ao processo de negociação com suicidas em diferentes cenários. O quarto expõe as estratégias de comunicação com suicidas, bem como se propõe a analisar os aspectos que impactam os profissionais envolvidos na negociação. O quinto e último módulo será voltado aos estudos de casos aplicados à gestão de crises com suicidas. O trabalho será desenvolvido em oficinas e rodas de conversa com os participantes e professores do curso.

  

PROPOSTA/RESUMO DAS ATIVIDADES

 

1º Encontro

2º Encontro

3º Encontro

Módulo 1: Aspectos conceituais do suicídio.

·         O fenômeno do suicídio.

·         Atualidades.

·         Mitos acerca do suicídio.

Módulo 3

Os Atores da Intervenção

·         Competências de um negociador: o que é esperado?

·         O sucesso do ato como possibilidade: como a equipe e o negociador podem ser afetados.

·         Primeiros auxílios psicológicos.

·         Suicídio e legislação

Módulo 5

·         Estudo de caso.

 

Intervalo

Intervalo

Intervalo

Módulo 2

Fundamentos do Gerenciamento

·         Aspectos do gerenciamento de crises em ocorrências com suicidas.

·         Fatores de riscos associados ao suicídio no contexto da negociação.

·         Diretrizes para negociação em situação de tentativa de suicídio.

Módulo 4

O processo de negociação com suicidas.

·         Negociação com suicidas em diferentes cenários.

·         Estratégias de comunicação com suicidas

 

 

Continuação

Módulo 05

·         Estudo de caso.

 

  

Referências Bibliográficas Recomendadas

BOCK, Ana M. Bahia et alli. Psicologias. Uma introdução ao estudo de psicologia. 13ª edição. Saraiva, São Paulo, 2001.

BOTEGA, Neury. Prevenção do Suicídio. Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Ministério da Saúde, 2006.

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CHUCK, Regini. Crisis Intervention for Law Enforcement Negotiators.FBI Law EnforcementBulletin. 2014.

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FRITZEN, Silvino José. Janela de Johari. 7ª edição. Ed. Vozes. Petrópolis. 1991.

GUIRAUD, Pierre. A linguagem do Corpo. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. Ed. Ática. São Paulo. 1991;

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