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O Suicídio no Facebook: informação e banalização da morte

O GEPeSP busca produzir conhecimento e maneiras de transmití-lo que possam efetivamente cooperar para a prevenção do suicídio. O Facebook, por sua popularidade e abrangência se mostrou a nós como uma ferramenta útil para atingir esse último objetivo. O Grupo passou então a manter e alimentar uma página nessa rede social e até a data de publicação desse post, a fanpage contava com quase 1.500 curtidas e já chegou a alcançar mais de 3 mil pessoas organicamente.

Apesar de termos alcançado um grande número de pessoas, contribuindo com diversas outras iniciativas que já possuem extensa história de militância na prevenção ao suicídio (como o Centro de Valorização da Vida, por exemplo), uma rápida pesquisa do termo “suicídio” no Facebook nos mostra que ainda há uma banalização enorme com relação a esse tipo de vitimização. O desafio de tornar as redes sociais mais humanas é do mesmo tamanho ou superior a proliferação de eventos, páginas e grupos em que a vida não é valorizada. Apesar de alguns setores da sociedade defenderem a liberdade de expressões “jocosas” e focadas na comédia, o suicídio não deveria ser objeto dessas expressões. Terminada a risada, só resta desinformação e banalização de um fenômeno que vitimiza uma pessoa a cada 40 segundos no mundo.

Por isso, cabe a nós, interessados na prevenção ao suicídio, entendermos o fenômeno tal como abordado na internet, para que possamos traçar estratégias mais eficientes no combate a forma trivial e irresponsável com que o suicídio é tratado. Nesse sentido, começamos com esse artigo a estudar o tema do suicídio no Facebook, maior rede social do mundo (No final do texto você pode saber mais sobre como foram realizadas as análises).

 

Foco Geográfico dos eventos

A distribuição geográfica dos eventos que possuem o suicídio como temática é bem diversa. Os Estados Unidos, em relação ao número de participantes (pessoas, que confirmaram presença, disseram que talvez participariam e que mostraram interesse no evento), foi o país que possuiu maior engajamento, com mais de 39 mil pessoas minimamente interessadas em eventos sobre suicídio. Em seguida temos Alemanha e Inglaterra com cerca de 9 mil participantes cada. O Brasil somou mais de 4 mil pessoas interessadas em eventos sobre suicídio.


Quando olhamos para as cidades-sede desses eventos, podemos ver que Little Rock, cidade do estado de Arkansas (EUA), possuiu o maior número de participantes, quase 8 mil. O evento que causa tamanho engajamento é o “Arkansas Out of the Darkness Community Walk to Prevent Suicide”, que ocorre no dia 6 de novembro de 2016. A segunda cidade com maior engajamento foi Auckland, na Nova Zelândia, por conta do evento “Keep On, Keepin’ On – Carnival for a Cause 2016 – Suicide Prevention Awareness Aotearoa”, que ocorre no dia 13 de novembro de 2016. O que nos chama atenção é o grande engajamento em eventos de prevenção ao suicídio, demonstrando que essa é uma pauta prioritária para diversas organizações ao redor do mundo. O Brasil não fica atrás. O evento “Seminário de Prevenção ao Suicídio”, realizado pela Coordenadoria de Políticas Sociais, em parceria com o Laboratório de Psicopatologia Fundamental da UFPR (Universidade Federal do Paraná), o CVV e a Secretaria Municipal de Saúde, engajou até o momento quase 2 mil pessoas. O evento ocorreu nos dias 14 e 15 de outubro de 2016, na cidade de Curitiba.

Suicídio coletivo, festas e banalização

Quando analisamos os títulos dos eventos sobre suicídio no Facebook, observamos que apesar do grande papel exercido pelos eventos com a temática da prevenção, há ainda muita banalização do fenômeno. Nos eventos em inglês e em português, o “suicídio” é mobilizado para nomear festas e também há diversas chamadas “jocosas” para suicídios coletivos:

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A “chamada” para suicídios coletivos é o que mais chama atenção. No grafo acima, o tamanho dos círculos indica a frequência das palavras nos títulos dos eventos. Sendo assim, no caso brasileiro, “Suicídio”+”Coletivo” se dá em maior frequência do que “Suicídio”+”Prevenção”. Alguns exemplos de eventos em português: “Suicidio coletivo para sobrecarregar o inferno e derrotar o diabo”; “Suicídio Coletivo pq vida de pobre é bem triste”; “Pacto de suicídio no Facebook”; “Suicídio coletivo em repúdio às frustrações da sociedade moderna!”; etc.

Nos casos em inglês, “Halloween” aparece com mais frequência do que “prevention”. Em inglês podemos ver eventos como: “Sexy Suicide + Helloween Party”; “Out of the Darkness Walk”; “Suicideboys”; “Suicide Squad – The Original Halloween Party”; etc. Além de nomear eventos sociais, percebe-se que o “suicídio” também é mobilizado de forma descriteriosa nas redes, promovendo a banalização e a desinformação.

Prevenção e informação no Facebook

Dentro das páginas com menção a “suicídio”, temos um ambiente mais profissional, composto de diversas entidades, instituições e coletivos de pessoas que se dedicam a compreender o fenômeno do suicídio e criar estratégias de prevenção. Por isso, as análises textuais apresentam poucos temas que fogem desse âmbito, diferente dos eventos em que transbordam piadas e eventos festivos. Na rede de palavras que compõe as descrições das páginas em inglês, há a centralidade de “suicide” (42,2%) e “prevention” possui 5,4% de presença nos títulos das páginas analisadas (cabe pontuar que a palavra “de” no grafo das páginas em inglês se deve ao fato de que muitas páginas americanas produzem descrições em inglês e em espanhol). O mesmo padrão é encontrado nas páginas em português e espanhol (“suicídio” compõe 62,3% dos vocábulos): Há a predominância de palavras como “pesquisa” (6,6%), “taxa” (8,6%), “prevenção” (4,0%), apontando para um ambiente qualificado de discussão acerca do fenômeno.

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Apesar do otimismo, ainda é possível ver o suicídio sendo tratado de forma glamourizada e irresponsável também nas páginas. As fanpages com maior volume de “curtidas” foram “Suicide Squad”, um filme de ficção, “Suicide Girls” e “Suicide Silence”, ambos grupos musicais. Abaixo estão as páginas apresentadas proporcionalmente ao número de fãs:

Por uma rede mais sensível ao suicídio

Os dados exploratórios que apresentamos demonstram que apesar de avanços na criação de entidades preocupadas em discutir seriamente o suicídio, ainda há a permanência de tratamentos ofensivos, preconceituosos e irresponsáveis do tema. Boa parte desses casos são produtos de “brincadeiras” e “piadas” de indivíduos e pequenos grupos, o que de longe não é o perfil da totalidade do que se diz sobre suicídio no Facebook.

Aqueles que são sensíveis ao assunto, como o GEPeSP e sua ampla rede de colaboradores, precisam ser agentes na conscientização de outras pessoas que ainda tratam o suicídio de forma irresponsável e jocosa. Esse comportamento muitas vezes é fruto do desconhecimento do tema e é nessa janela de possibilidade que nós temos de agir. Ações que se preocupem em engajar um número maior de indivíduos, com linguagem acessível e que fuja dos clichês e da abordagem pessimista se fazem cada vez mais necessárias para humanizar a rede.

 

Pablo Nunes

Pesquisador do GEPeSP

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Metodologia das análises

Utilizando a ferramenta Netvizz[1] foi possível mapear eventos e páginas do Facebook que tem o suicídio como temática. Com o auxílio do Tableau[2], Iramuteq[3], NVivo[4] e Gephi[5] foi possível tratar os dados e criar as apresentações aqui publicadas . As palavras procuradas foram “Suicide”, “Suicídio”, “Suicidio” e “Bunuh diri”, inglês, português, espanhol e indonésio. As línguas foram escolhidas de acordo com os 5 países com maior número de usuários na rede social (casos em outras línguas foram captados por conta da grafia semelhante):

Países com maior número de usuários no FacebookPaíses com maior número de usuários no Facebook

No caso dos eventos, selecionamos 183 casos, em diferentes países. Para as páginas o montante foi de 1.418 casos. Nas análises geográficas contabilizamos os participantes dos eventos selecionados e nas análises das páginas analisamos os números de fãs. As análises textuais se basearam na frequência das palavras em títulos e descrições de páginas e eventos.

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[1] “Netvizz is a tool that extracts data from different sections of the Facebook platform – in particular groups and pages – for research purposes. File outputs can be easily analyzed in standard software” Fonte: https://apps.facebook.com/netvizz/

[2] Tableau é uma ferramenta de visualização de dados. Fonte: http://www.tableau.com

[3] “O IRAMUTEQ é um software licenciado por GNU GPL (v2) que permite fazer análises estatísticas sobre corpus textuais e sobre tabelas indivíduos/palavras. Ele ancora-se no software R (www.r-project.org) e na linguagem python (www.python.org)” Fonte: http://www.iramuteq.org/

[4] “NVivo é um software que suporta métodos qualitativos e variados de pesquisa. Ele é projetado para ajudar você a organizar, analisar e encontrar informações em dados não estruturados ou qualitativos como: entrevistas, respostas abertas de pesquisa, artigos, mídia social e conteúdo web” Fonte: http://www.qsrinternational.com/nvivo-product

[5] “É uma plataforma open source para a visualização e manipulação de grafos dinâmicos e hierárquicos, incluindo todos os tipos de redes e sistemas complexos” Fonte: https://gephi.org/