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“O principal fator para o suicídio do idoso é o isolamento, a solidão”. GEPeSP entrevista Cecília Minayo

Um problema invisível e silencioso se espalha pelo Brasil: o abandono de pessoas idosas. Quem os abandona não são estranhos, pelo contrário, são filhos e filhas, netos e netas, sobrinhos e parentes mais ou menos próximos. O alerta vem da socióloga e antropóloga Maria Cecília de Souza Minayo, referência nacional quando o assunto é saúde da população idosa. Segundo a pesquisadora, o abandono leva ao isolamento e à solidão, fatores que influenciam de modo decisivo o suicídio de pessoas idosas, tema de seus mais recentes estudos.

Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Minayo é coordenadora científica do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP). É pesquisadora 1A do CNPq e a cientista social brasileira mais citada em artigos na base Scielo. Seu lattes resume uma longa carreira dedicada ao ensino e à pesquisa: orientou 69 teses e dissertações, publicou 207 artigos científicos, 199 capítulos de livros e 40 livros _ sendo 7 individualmente e os demais como organizadora ou em colaboração. É membro do Conselho editorial de 14 revistas científicas, sendo 4 estrangeiras, e desde 2013 é Editora Regional da Revista Environmental Health Perspectives. Recebeu a “Medalha de Mérito da Saúde “Oswaldo Cruz”, conferida pelo Ministério da Saúde em 2009, e, por seu trabalho em pesquisas sobre idosos, recebeu em 2014 o Prêmio Direitos Humanos concedido pela Presidência da República.

Um dos grandes nomes das ciências sociais no Brasil, Cecília Minayo inaugura a série GEPeSP entrevista. Ela falou de sua preocupação com o suicídio de idosos e de seu próximo projeto, uma pesquisa nacional para investigar como essa população tem vivido: “A minha inquietação é a seguinte: fica invisível o que está acontecendo com os idosos em suas famílias”. Aos 80 anos, sua receita de saúde é trabalhar muito e ver o trabalho reconhecido _ além de brincar com os netos e cuidar da família.   A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

*Entrevista concedida a Fernanda da Escóssia, pesquisadora-associada do GEPeSP, jornalista e professora universitária do IBMEC Rio; doutoranda no CPDOC/FGV.

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Por que estudar o suicídio de idosos?

Sou socióloga e antropóloga, com doutorado em saúde pública. Minha linha de saúde pública é sobre questões sociais que afetam a saúde da população. Aqui no Claves trabalhamos de modo conjunto a epidemiologia e as ciências humanas. Observando do ponto de vista epidemiológico, a curva de suicídios no Brasil é relativamente baixa, em torno de 4,5 por 100 mil habitantes. O que a gente observa quando olha mais detidamente é que há duas grandes faixas etárias mais comprometidas: os idosos e os jovens. Temos um grupo que trabalha com a questão do jovem.   Mas não havia nada escrito no Brasil sobre a questão do idoso, embora a gente sentisse a curva tendendo a aumentar. Ninguém estava estudando o suicídio dos idosos no Brasil. Fiz um projeto para o Rio de Janeiro, um projeto piloto, e um em nível mais nacional, em que a gente estudava os dados epidemiológicos do país. O primeiro estudo foi em cinco cidades brasileiras e o segundo a gente trabalhou com dez grupos no Brasil, acrescentando um grupo na Colômbia e um no Uruguai. Foi muito interessante porque a gente conseguiu observar do ponto de vista epidemiológico, que havia uma replicação dos fatores de risco, mas trazia inovação em relação às situações individuais.

Quais são os fatores associados ao suicídio?

A OMS fala deles. São fatores médicos, com o aparecimento de outras doenças mentais, em especial a depressão; os fatores sociais mais amplos, e os microfatores sociais, aquele entorno da família, da vizinhança, do abrigo, que a OMS coloca como fatores ambientais. Em qual ambiente o idoso vive que provoca isso? A gente não chegou a estudar, mas a OMS coloca também a influência da mídia, quando estuda suicídio em geral. Nesses nossos estudos qualitativos, encontramos que o fator principal é o isolamento, a solidão. Mapeando as 60 entrevistas, vimos que isolamento e solidão estão muito associados a outros fatores da história da vida. A gente levantou a história de vida desses idosos, o ambiente familiar no qual eles às vezes foram hostis… Há uma tendência ao abandono, que provoca isolamento. Chamo a atenção para isso porque, quando você vê a literatura sobre suicídio, a Organização de saúde fala isso, 90% dos casos de suicídio estão associados à depressão. Quando você vai para a realidade, você observa, é óbvio. Quando você resolve tirar sua vida, o suicídio é um ato extremo frente ao insuportável da vida. A pessoa chega num ponto de esgotamento. Você vai achar muito mais os fatores ligados à própria vida, à vida social, às condições em que ele vive e está passando o seu envelhecimento, do que esta entidade chamada depressão.

A gente fez um artigo sobre isso, a autora principal é Fátima Cavalcante, discutindo a depressão nos idosos. Você encontra muitos casos relacionados a outras doenças: pessoas que têm diabetes e têm que cortar a perna, por exemplo; em homens, surgem as questões relacionadas à masculinidade. O homem está com câncer de próstata, aí diz: não sou mais homem. Do ponto de vista de adoecimento, você tem uma espécie de vontade de abandonar a vida pelo insuportável da situação, de não ter condição de ir ao médico, ter que ser carregado para lá e para cá…  As pessoas dizem: “Eu perdi o sentido de viver”; “Estou dando trabalho para minha família e estou sofrendo muito”. Tem também os transtornos mentais, de ansiedade… E há um fator médico relacionado ao uso de medicamentos. O fator desencadeante da morte foi o remédio da depressão. O tratamento de um idoso é uma coisa muito delicada. Estamos falando de morte, mas estamos falando de vida: como é que você passa esse momento final da sua vida. Nos fatores psiquiátricos, entra a depressão: seja a doença depressão em si ou um resultado depressivo, resultante da situação que eu estou vivendo. Não estou com vontade de morrer porque estou doente de depressão, mas por uma quantidade de coisas na minha vida que me deixam triste: estou dando trabalho para os meus filhos, já fiz tudo o que podia fazer na vida…  Quando a pessoa já viveu com transtorno mental, na velhice isso costuma ser uma resultante … ansiedade, distúrbio de sono, melancolia, muitas dessas coisas vêm da história da pessoa.

Qualidade no fim da vida

O Brasil está vivendo mais, a expectativa de vida aumentou. Como garantir qualidade aos idosos nesse fim de vida?

A gente tem algumas políticas inclusivas que são fundamentais, por exemplo, aposentadoria e o BPC (para quem não tem aposentadoria. Parece pouco, mas você não pode imaginar o que significa para os idosos. Os estudos mostram que 12% dos idosos não têm nenhuma renda. Isso (ter uma pequena renda), para o interior e para as mulheres, é um sinal de liberdade, faz uma diferença grande. O transporte gratuito para os idosos, abatimento em espetáculos culturais, isso é muito importante. A gente já não pensa nisso porque se acostumou, mas isso é relevante. A gente tem uma população idosa saudável, com doenças controladas. A pessoa não se sente doente, ela tem autonomia. Os idosos que sentem autônomos podem ter alguma doença, como você pode ter, e a vida não acabou. Onde que o bicho pega?

Onde que o bicho pega?

A gente tem aproximadamente 15% de idosos numa situação de dependência. Aí é que o bicho pega. Para esses o Brasil está olhando muito pouco. Estudos de Ana Amélia Camarano mostram resultados de um levantamento sobre as instituições de longa permanência. São 3.800 para mais de 4 milhões de idosos, e aqui no Rio de Janeiro só tem uma instituição pública. A Vigilância Sanitária foi incitada a fazer uma normatização para as instituições de longa permanência de idosos. Idosos dependentes iam para esses lugares, que eram uma coisa terrível. Houve uma normatização pública que foi importantíssima. Esse grupo de idosos dependentes é o grupo mais caro, que vai gastar mais em saúde, mais do que qualquer outra faixa etária. É o grupo que mais sofre. Eles ficam dependentes da família e, se a família não tem condições de cuidar, eles ficam isolados. E o isolamento aparece como fator associado ao suicídio. Temos casos bizarros, com um de Brasília. O idoso ficava no asilo, mas o asilo tinha a prática de no fim de semana o idoso ficar com a família. Mas a família, no fim de semana, colocava o idoso na porta do hospital.

Cecília Minayo

Metodologia de pesquisa

Como vocês fizeram esses estudos? Entrevistaram pessoas que tentaram suicídio ou suas famílias?

Na primeira pesquisa, famílias de idosos que tinham cometido (suicídio). Famílias, parentes, porteiros e vizinhança…. Isso se chama _ um termo terrível que há nos protocolos _ autópsia psicológica. Nós rebatizamos para autópsia psicossocial. Não é só um problema da cabeça, é tudo. O termo autópsia psicológica é internacional, consagrado. Mas nós ampliamos. Fizemos um genograma, recuperamos toda a história da família e vimo que muitos desses idosos tinham pessoas na família que tinham se matado. No segundo estudo, entrevistamos pessoas que tinham tentado o suicídio ou tinham ideação suicida, o comportamento suicida, no qual a OMS coloca desde a automutilação até a tentativa propriamente dita. A pessoa dá sinais, para de tomar medicamentos, não quer sair… A gente criou um protocolo e deixava a pessoa muito livre para falar. Quando era preciso, a pessoa era levada para atendimento. A gente completou esse estudo com pessoas que tinham tentado suicídio ou tiveram ideação suicida em abrigos no Rio e no Ceará. É um estudo qualitativo. E a parte quantitativa, aqui nesse caso, serviu par mostrar que ela não indica nada. Sabe o que ela indica: a ausência de notificação. Teoricamente, a gente sabe que, para cada pessoa que se mata, tem pelo menos dez que tentam. Aqui, no caso, essa subnotificação ficou escancarada. A família não informou, ficou com medo, acha que não tem que informar… é uma ausência de dados do ponto de vista quantitativo.

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Papel da mídia

Qual o papel da mídia ao tratar esse tema? A Organização Mundial de saúde tem dito que não adianta encobrir, mas que é preciso tratar de forma responsável.

A mídia não pode espetacularizar. Tem alguns suicidas que querem espetacularizar. O papel da mídia é ajudar a debater isso. É um assunto que incomoda. O pouco de cobertura que a gente (na pesquisa dos idosos) foi responsável. No caso dos idosos, a gente não encontrou nada relacionado à mídia, mas, nos estudos de jovens, a mídia e as redes sociais são muito importantes.

Políticas públicas

Que políticas públicas seriam importantes para esse grupo mais vulnerável?

O suicídio faz parte da vida. Estamos preocupadas com a vida das pessoas idosas. Nas histórias que temos tem coisas impressionantes, como uma senhora que não ia do quarto para a mesa sozinha, sem depender da filha, até que num minuto que a filha saiu para ir ao mercado ela tinha amarrado o lençol da cama para se enforcar. Uma pessoa que estava totalmente dependente. O suicídio é um ato de vontade frente a uma situação insuportável. A OMS diz que é possível prevenir. No mundo, de 2000 a 2010, os suicídios baixaram de 815 mil para 802 mil. A OMS olha para lugares onde está havendo redução, são lugares que estão buscando prevenir. O suicídio é categorizado dentro da violência, como violência autoinfligida. Segundo a OMS, o maior número de violências no mundo são os suicídios. Os homicídios, que para nós (no Brasil) são a coisa pior,  estão em terceiro, em segundo estão os acidentes de trânsito. Outro dado interessante é que, enquanto os suicídios estão concentrados nas grandes e médias cidades, os suicídios estão concentrados nas cidades pequenas.

É mesmo? Mas na cidade pequena a gente não teria o idoso, teoricamente, mais perto de sua família?

E curiosos, mas os suicídios são maiores nas cidades menores. É impressionante. Na cidade grande ele pode sair, se divertir. São necessários também cuidados específicos para aquele grupo mais vulnerável, os idosos dependentes. E aí o Brasil falha muito.

O que seria importante?

Apresentamos um projeto para estudar a situação dos idosos dependentes nas famílias. Se mais de 90% dos idosos estão nas famílias, como está sendo a vida deles nessas famílias? Esse isolamento que a gente detectou. Apresentamos o projeto à Faperj, foi aprovado, até hoje não saiu. Apresentamos ao CPNq, para fazer em dez lugares. O CNPq aprovou, e tem mais ou menos um mês descobri que CNPq tinha cancelado o empenho. Corri atrás. Agora descancelou o empenho, mas o dinheiro não chegou.

Que exemplos a senhora apontaria a partir da experiência de outros países?

O que o mundo está fazendo? Criar um ambiente favorável para o envelhecimento e a longevidade. O mundo está fazendo isso das mais diferentes formas _ como a criação de espaços próprios para idosos. Vale olhar esse fator forte das famílias, que os relatos apontam. Temos olhado a experiência da Espanha, que observa essa questão da dependência dos idosos e faz uma categorização da dependência. Para cada tipo de dependência é oferecido um tipo de assistência. Tenho  em minha família o caso de uma idosa que vivia na Espanha e usava um cordão com um dispositivo ligado à Cruz Vermelha. Se ela sentia alguma coisa, acionava a Cruz Vermelha. Tinha uma pessoa que ia à sua casa fazer comida, outra que fazia limpeza uma vez por semana. Tudo pago pelo serviço público.

A minha inquietação é a seguinte: fica invisível o que está acontecendo com os idosos em suas famílias. Numa família em que a mulher tem que sair para trabalhar, o homem também, e quem cuida do idoso? Isso ocorre nas famílias pobres, mas também nas famílias ricas. Esses dias estava no banco e vi uma idosa com o gerente. Ele mostrava como a conta estava descoberta, e ela estava no cheque especial. Ela dizia que tinha uma poupança. Mas o filho e a nora já tinham levado tudo. Queria alguém que fizesse um estudo quantitativo sobre isso _ mas, como não posso, vou fazendo o qualitativo neste projeto. E o objetivo estratégico é apresentar isso para os poderes públicos, mostrar que outros países estão cuidando de seus idosos. Isso está estabelecido.

Saúde, trabalho e família

Queria falar um pouco da senhora. A senhor ainda vem todo dia ao Claves?

Estou com 80 anos. Venho praticamente todo dia. Sou editora da Revista de saúde coletiva. É um trabalho do cão. Tenho oito alunos orientandos de mestrado ou doutorado. Amanhã vou dar uma palestra para policiais. É praticamente todo dia aqui no Claves.

Qual o segredo de sua vitalidade?

Eu gosto do que faço. Acho que é isso. Tenho apoio da família.

Que coisas ajudam na sua qualidade de vida aos 80 anos?

Sou ruim, viu, não gosto de exercício físico… faço caminhadas, pouquinho. Com muito pouco, mas como comida saudável. Tenho doencinhas, como esse tremor, uma coisa do envelhecimento, uma doencinha tão fajuta que nem remédio tomo. (Ri…)

Parece que o trabalho é sua receita de saúde…

Adoro meu trabalho. Tenho muita recompensa, reconhecimento. Fiz 80 anos agora, a presidência (da Fiocruz) fez um almoço para me homenagear. É uma coisa pequena, mas é uma vida aqui. Estou aqui há 40 anos. É minha vida. E tenho reconhecimento, sou  a cientista social mais citada do país, e não sou eu que estou falando, é o Scielo. O reconhecimento é fundamental. Estou falando porque você perguntou, mas não fico falando isso. Meu grupo de trabalho poderia falar: “Cecília, vai para casa cuidar dos netos”. Mas o pessoal me quer, me reconhece como coordenadora científica do grupo. Eu não preciso mais que isso.

E os netos?

São fofinhos… Tenho duas filhas, a mais velha tem um menininho e a outra tem uma menininha de 3 anos. As filhas me dão muito prazer… A família me dá muita alegria, meu marido (o cientista Carlos Minayo, também pesquisador da Fiocruz e especialista em saúde do trabalhador) me apoia totalmente. Diz que o único ser de quem ele tem ciúme é meu trabalho. (Risada)