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O que precisa ser dito

A delicada relação dos meios de comunicação com o suicídio data pelo menos do século XVIII, com a publicação da novela “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, em 1774. Após um amor fracassado, o herói se mata com um tiro. Depois disso, espalharam-se pela Europa relatos de jovens que teriam se suicidado, o que resultou na proibição do livro em vários lugares. Origina-se daí o termo “Efeito Werther”, usado na literatura técnica, indicando um efeito de contágio: falar de suicídio poderia levar outras pessoas a cometerem o mesmo ato.

Ao longo dos anos, outros estudos mostraram alguma associação entre a divulgação de um suicídio e a ocorrência de novos casos. Suicídio era, assim, uma pauta a ser evitada, em nome da responsabilidade social que constitui um dos pilares do jornalismo. Casos de ampla repercussão e interesse público configuravam exceções. A televisão brasileira guardará, no lixo de sua história, uma reportagem que mostrava o suicídio de uma jovem de 16 anos, em 1993, como um flagrante das ruas de São Paulo.

Na sociedade cada vez mais hipermidiatizada em que vivemos, porém, o silêncio do jornalismo sobre qualquer tema torna-se inútil. O suicídio explode nas redes e chega à palma da mão em relatos, gritos de socorro, vídeos e tutoriais.

Diante do inevitável, organismos internacionais e nacionais mudaram de estratégia. Em 1999, a OMS lançou uma iniciativa mundial para a prevenção do suicídio e um trabalho direcionado a profissionais considerados relevantes na prevenção do problema _ jornalistas entre eles. Foram produzidas cartilhas específicas para comunicadores, apontando caminhos para uma abordagem jornalística responsável.

É preciso ser cuidadoso com estatísticas, buscando fontes confiáveis e comparações internacionais; no Brasil, os dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade), do Ministério da Saúde, trazem as informações mais completas.

“O suicídio não deve ser mostrado como inexplicável ou de uma maneira simplista. Ele nunca é o resultado de um evento ou fator único. Normalmente sua causa é uma interação complexa de vários fatores, como transtornos mentais e doenças físicas, abuso de substâncias, problemas familiares, conflitos interpessoais e situações de vida estressantes”, orienta o manual para profissionais da mídia produzido pela OMS.

Ninguém tira a própria vida por um único motivo. Não simplifiquemos a dor alheia. Por outro lado, não é preciso detalhar métodos e, principalmente, não se deve glamourizar o suicídio como solução. Não existe suicídio bem sucedido, existe suicídio consumado.

Escrever reportagens sobre suicídio é tratar de um tema que todos _ inclusive o repórter _ gostariam que não existisse. Mas existe, e o jornalista não precisa fugir dele. Em tempos sombrios, a responsabilidade do jornalismo aumenta.

 

*Fernanda da Escóssia é jornalista e professora universitária no IBMEC Rio. É Mestra em Comunicação pela UFRJ, doutoranda em História no CPDOC/FGV e pesquisadora associada do Gepesp (Grupo de Estudos e Pesquisas em Suicídio e Prevenção), da Uerj.

 

ONDE BUSCAR APOIO PROFISSIONAL EM FORTALEZA

Centro de Atenção Psicossocial (Caps) 

É uma rede municipal de atendimento, com 14 Caps (seis Geral, seis Álcool e Drogas e dois Infantis) nas seis Regionais. O encaminhamento é dado pelos postos de saúde e outras unidades (ou o próprio cidadão pode procurar uma unidade do Caps. Outras informações e os endereços podem ser encontrados em https://catalogodeservicos.fortaleza.ce.gov.br/categoria/saude Centro de Valorização da Vida (CVV)

Atendimento voluntário e gratuito, 24 horas, por telefone ou internet, para apoio emocional e prevenção do suicídio. Contatos pelos telefones 141 e 188 ou pelo site https://www.cvv.org.br. Em Fortaleza, o posto do CVV fica na rua Ministro Joaquim Bastos, 806, Fátima. Telefone: 3257.1084. Serviço de Psicologia Aplicada do Núcleo de Atenção Médica Integrada/Universidade de Fortaleza (SPA/Nami/Unifor)

Formado por professores e alunos (a partir do 8º semestre) do curso de Psicologia da Unifor. Os encaminhamentos são dados pelo Caps, com exceção do plantão psicológico (serviço emergencial). Os atendimentos são de segunda a sexta-feira, das 8 às 21 horas. Informações: 3477.3611. Programa de Apoio à Vida/Universidade Federal do Ceará (Pravida/UFC)

Projeto de Extensão da Faculdade de Medicina da UFC, reúne estudantes de Psicologia, Medicina e Serviço Social e tem supervisão do psiquiatra e professor Fábio Gomes de Matos. Além do atendimento gratuito (nas tardes das quintas-feiras), promove capacitações, pesquisas e debates sobre suicídio. Informações: 9.8400.5672. Clínica de Psicologia do Centro Universitário Estácio do Ceará (Estácio/FIC) 

Inaugurada em setembro de 2014, atende, gratuitamente, a crianças, adolescentes, adultos, idosos, casais e famílias. É uma clínica-escola, vinculada ao curso de Psicologia da Estácio/FIC e prática para cerca de 40 alunos do 8º semestre do curso de Psicologia. Funciona de segunda-feira a sábado, na rua Felipe Nery, 1.006, Guararapes. Informações: 3271.1992.

 

FERNANDA DA ESCÓSSIA ESPECIAL PARA O POVO

 

Fonte: https://www.opovo.com.br/jornal/cienciaesaude/2018/04/o-que-precisa-ser-dito.html