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Polícia que mata, polícia que sofre: um guia de leitura sobre suicídio entre profissionais de segurança

Por Fernanda da Escóssia
Jornalista, professora do curso de Jornalismo do IBMEC Rio; pesquisadora-associada do GEPeSP; mestra em Comunicação pela UFRJ e doutoranda em História no CPDOC/FGV

 

“O ser humano erra várias vezes, mas o policial, nós não podemos errar uma vez. Aí vem insatisfação completa com o meu serviço, insatisfação integral, até culminar numa depressão, num transtorno obsessivo compulsivo; eu não sabia o que é que era até eu tentar me matar. (…) Encerrei minha carreira com, praticamente, 15 anos de polícia. (…) Eu dava instrução de tiro e munição. E descobri uma coisa: várias pessoas que eu formei morreram, vários conhecidos meus foram atacados por bandidos, foram mortos, acidente de trânsito; só desgraça, só desgraça”. (policial militar, praça, operacional, entrevista concedida ao GEPeSP).

A história deste policial militar do Rio de Janeiro resume a de muitos agentes de segurança pública: treinados para, teoricamente, garantir a paz social, eles acabam sufocados por uma rotina de violência que abre caminho para o sofrimento mental intenso, com casos repetidos de suicídio e depressão. A diferença é que o profissional de segurança trabalha com uma arma na mão _ o que potencializa o risco de que ele cometa violência contra os outros ou contra si próprio.

Desde o surgimento do GEPeSP, um de seus eixos é a investigação sobre o sofrimento mental entre profissionais de segurança. O livro “Por que os policiais se matam?”, lançado em 2016 pelo GEPeSP, traz o mais completo diagnóstico do suicídio na Polícia Militar do Rio de Janeiro. Graças a este projeto sabe-se, com base em dados da PM fluminense, que de 1995 a 2009 foram notificados 58 casos de suicídio de policiais militares no Rio, mais 36 tentativas de suicídio. Dos 58 óbitos por suicídio de PMs da ativa, três aconteceram em serviço e 55 nos dias de folga. Foram em média três ocorrências a cada ano. O número de mortes por suicídio de PMs de folga foi 18 vezes maior do que em serviço.

Com base nos números, o estudo do GEPeSP mostra que o risco relativo de morte de PMs por suicídio foi quase 4 vezes superior ao da população geral _corroborando pesquisas similares realizadas por outros centros, como o Claves (Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli), da Fundação Oswaldo Cruz.

Projeto de lei aprovado este ano na Assembleia Legislativa do Rio criou o Programa de Segurança e Saúde no Trabalho dos Agentes de Segurança Pública do Estado. O projeto, de iniciativa do deputado Marcelo Freixo (PSOL), inclui policiais militares, civis, agentes penitenciários e do sistema socioeducativo. O governador Luiz Fernando Pezão chegou a vetar o projeto, mas a Alerj derrubou o veto. A lei busca prevenir doenças resultantes das condições de trabalho desses profissionais, mapeando riscos e dando atendimento aos agentes que enfrentarem problemas físicos ou psíquicos.

A PM fluminense tem histórico de ações violentas. Segundo estudo do sociólogo Ignacio Cano, o Rio de Janeiro era, em 2014, o Estado com maior taxa de letalidade na ação policial, ou seja, tinha o maior número de pessoas mortas pela polícia para cada 100 mil habitantes. O olhar diferenciado das pesquisas sobre sofrimento mental de policiais permite compreender esses profissionais não apenas como algozes, mas também como pessoas em sofrimento emocional e psíquico.

Nos grupos de trabalho do GEPeSP, os pesquisadores repetidamente informam sobre casos de suicídio tentados ou consumados nas PMs de seus estados. Só este ano houve ocorrências no Distrito Federal e na Bahia. Mas o tema ainda esbarra no silêncio e na subnotificação de casos. Numa categoria associada à força, falar de suicídio e problemas emocionais parece incomodar mais ainda.

Diante dessa constatação, o GEPeSP apresenta um roteiro de leitura com textos voltados para a saúde mental de policiais. Juntos, os estudos permitem compreender o suicídio desses profissionais como algo associado a vários fatores, entre eles, agressões verbais e físicas (perseguições/amedrontamento, abuso de autoridade, xingamentos, insultos, humilhações); insatisfação com a corporação; indicadores de depressão variados e outros problemas de saúde. Trabalhos realizados na França, nos Estados Unidos e no Reino Unido permitem conhecer abordagens internacionais sobre o tema. Em comum, todos os estudos apontam para a necessidade de intensificar as políticas de prevenção do suicídio entre profissionais de segurança pública. Alertam sobre algo que deveria ser óbvio, mas não é: um policial em sofrimento emocional e psíquico é alguém que precisa de ajuda, sob pena de não conseguir garantir a segurança da sociedade.

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O roteiro traz um pequeno resumo dos textos, além dos links de acesso. Fica aqui o convite para que o leitor conheça a biblioteca virtual do GEPeSP, com mais de 400 títulos sobre suicídio, saúde mental, segurança pública, saúde do trabalhador e mortes violentas.

 

Boa leitura!

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MIRANDA, Dayse (org.) Por que os policiais se matam. Diagnóstico e prevenção do comportamento suicida na polícia militar do Estado do Rio de Janeiro / 1. ed. – Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2016. 148 p.

O livro resulta de pesquisa conduzida pelo GEPeSP sob a coordenação da cientista política Dayse Miranda, em parceria com a PM fluminense. Com coautoria de cinco psicólogos da Polícia Militar e de pesquisadores da Uerj de diferentes áreas, a pesquisa investiga fatores associados ao suicídio de policiais. Os pesquisadores ouviram 224 policiais militares no Rio; deles, 10% disseram ter tentado suicídio e 22% afirmaram ter pensado em suicídio em algum momento. O estudo propõe um plano de prevenção do comportamento suicida entre policiais a partir de dois eixos: um voltado para o tema em geral, com palestras, gestão de pessoal e logística, formação e treinamento; e um voltado para uma atuação específica, com foco no atendimento do policial em sofrimento mental.

  

MIRANDA, Dayse, GUIMARÃES, Tatiana. “O Suicídio Policial: O que sabemos?”. DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – Vol. 9 – no 1 – 2016- pp. 13-34.

O artigo faz uma revisão de leitura de pesquisas norte-americanas, inglesas e brasileiras que investigaram a relação entre as mortes por suicídio e os fatores associados à ocupação de policial. Segundo as autoras¸ policiais são apontados na literatura internacional como um grupo de alto risco de morte por suicídio, ainda que não haja consenso sobre estimativas de suicídio e associação com o trabalho policial. As pesquisas citadas mostram que a taxa de suicídio de policiais de Nova York foi o dobro da taxa da população geral, em 1994. No Brasil, o diferencial das taxas de suicídio de policiais e da população é expressivo, e estudo de Musumeci e Muniz (1998) mostrou que a taxa de suicídio da Polícia Militar da cidade do Rio de Janeiro, em 1995, foi 7,6 vezes a da população geral. O artigo alerta para a limitação dos dados e a ausência de estudos sobre o tema. Por fim, lista alguns fatores associados ao suicídio de policiais, como dependência química, doença mental e fatores organizacionais. Reitera a necessidade de desenvolver estudos empíricos em organizações policiais em diferentes contextos, como forma não apenas de contribuir para os estudos na área de Sociologia das Organizações e do Trabalho, mas também fornecer subsídios para a formulação de políticas de prevenção ao suicídio envolvendo profissionais de segurança pública.

 

Direitos humanos, grupos vulneráveis e segurança pública/organização: Ana Carolina Cambreses Pareschi, Cíntia Liara Engel, Gustavo Camilo Baptista. – Brasília: Ministério da Justiça e Cidadania, Secretaria Nacional de Segurança Pública 2016. 302 p. : il. – (Coleção Pensando a Segurança Pública; v.6)

A publicação integra a Coleção Pensando a Segurança Pública, editada pela Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública). Este volume contém artigos de pesquisadores sobre o tema dos direitos humanos e dos grupos vulneráveis. Os textos abordam temas como a atuação dos órgãos da Segurança Pública junto à população LGBT, a abordagem policial a partir dos pontos de vista e experiências de policiais militares e jovens negros, a tortura e as medidas protetivas para mulheres. Intitulado “Comportamento suicida entre profissionais de segurança pública e prevenção no brasil”, o quinto artigo dialoga diretamente com este roteiro de leitura. O texto é assinado por uma equipe multidisciplinar, da qual fazem parte os pesquisadores Dayse Miranda, Doriam Borges, Ignacio Cano, Tatiana Guimarães, Fernanda Novaes, Mirella Santos Ribeiro, Carmen Côrtes Furtado, Lidiane Pereira Raposo de Menezes, Alexandra Valéria Vicente da Silva, Pablo de Moura Nunes de Oliveira, Marcela dos Santos Reis, Bárbara Gabriela Santos de Sá e Renata Freitas Ribas.

Os autores traçam o perfil sociodemográfico e profissional dos policiais militares brasileiros que comunicaram ideação suicida e tentativa de suicídio, a partir de respostas destes profissionais ao questionário disponibilizado online pela Rede EAD da Secretaria Nacional de Segurança Pública, do Ministério da Justiça (SENASP/MJ), entre agosto e setembro de 2014. O artigo analisa possíveis fatores associados aos casos de ideação suicida e tentativa de suicídio. Os autores concluem pela urgência de investimentos, por parte das polícias, em políticas de valorização e humanização do policial militar, com políticas de prevenção em saúde mental.

 

SOUZA, Edinilsa Ramos de, MINAYO, Maria Cecília de Souza, SILVA, Juliana Guimarães e, PIRES, Thiago de Oliveira. “Fatores associados ao sofrimento psíquico de policiais militares da cidade do Rio de Janeiro, Brasil”. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 28(7):1297-1311, jul, 2012.

O artigo investiga fatores associados ao sofrimento psíquico dos policiais militares da cidade do Rio de Janeiro, Brasil, a partir de estudo transversal com 1.120 policiais. O estudo contextualiza o perfil socioeconômico e demográfico, a qualidade de vida, condições de saúde e de trabalho. Para mensurar o sofrimento psíquico, utilizou-se o Self-Reported Questionnaire. Os resultados indicaram associação entre sofrimento psíquico e fatores como: capacidade de reagir a situações difíceis e grau de satisfação com a vida; problemas de saúde, sobretudo, digestivos, nervosos, musculares e ósseos; e condições adversas de trabalho, como carga excessiva, exposição ao estresse e à vitimização. Os autores concluem o trabalho apontando a necessidade de intervenções para promover a saúde mental desses profissionais e alertando para a necessidade de prevenção.

 

SOUZA, Edinilsa Ramos de Souza; FRANCO, Letícia Gastão Franco; MEIRELES, Camila de Carvalho; FERREIRA, Vanessa Tokunaga; SANTOS, Nilton César. “Sofrimento psíquico entre policiais civis: uma análise sob a ótica de gênero”. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23 (1), pp.105-114, jan 2007.

O artigo investiga o sofrimento psíquico entre policiais civis, segundo diferenças de gênero. Para este fim, analisa dados de pesquisa anterior sobre condições de trabalho, saúde e qualidade de vida desses profissionais, usando métodos quantitativo e qualitativo. As pesquisadoras analisam dados de um questionário aplicado a uma amostra estatisticamente representativa de 2.746 (80,8% homens e 19,2% mulheres) policiais civis do Rio de Janeiro, segundo a variável gênero e inserção nos distintos estratos de organização da atividade policial (setores administrativo, técnico e operacional). Fazem também um panorama das características socioeconômicas, das condições de trabalho, dos problemas de saúde e da qualidade de vida desses policiais, destacando as informações em que a variável gênero aparece como fator diferenciador. O Self-Reported Questionaire (SRQ-20) é o instrumento a partir do qual se investigou sofrimento psíquico. Os resultados não indicam diferença de sofrimento psíquico entre os gêneros, mas apontam para a existência de diferenças significativas em alguns itens da escala, com mais relatos de sofrimento entre mulheres.

 

PINTO, Liana Wernersbach; FIGUEIREDO, Ana Elisa Bastos; SOUZA, Edinilsa Ramos de. “Sofrimento psíquico em policiais civis do Estado do Rio de Janeiro”. Ciência & Saúde Coletiva, 18(3):633-644, 2013.

O artigo trata da relação entre trabalho e sofrimento psíquico em policiais civis do Estado do Rio de Janeiro. Os dados foram obtidos a partir de questionário autopreenchido aplicado a esses profissionais na Capital, na Baixada Fluminense e no interior do Estado, indagados sobre qualidade de vida, condições de saúde e de trabalho. Mostraram-se associadas ao sofrimento psíquico as seguintes variáveis: grau de satisfação com a capacidade de reagir a situações difíceis, exercer o trabalho para o qual foi treinado, ter sofrido vitimização, área de localização da unidade (Capital, Interior, Baixada), problemas de sistema nervoso e o grau de satisfação com a vida como um todo. Os profissionais da Baixada apresentam risco de sofrimento psíquico aumentado e os do Interior, diminuído. Os autores alertam que muitos dos problemas são estruturais e demandam a necessidade de planejamento eficiente e eficaz na organização do processo de trabalho dos policiais, o que mostra a necessidade de políticas públicas que garantam a segurança e os direitos do policial no exercício de suas funções.

 

DELA COLETA, Alessandra dos Santos Menezes; DELA COLETA, Marilia Ferreira. Fatores de estresse ocupacional e coping entre policiais civis. Psico-USF, v. 13, n. 1, p. 59-68, jan./jun. 2008.

O estudo analisa o estresse entre policiais civis, a partir de uma amostra de policiais civis de uma Delegacia Regional de Segurança Pública (DRSP) do interior do Estado de Minas Gerais. Participaram do projeto 40 policiais civis da instituição, sendo 13 detetives, 5 carcereiros, 5 peritos criminais, 8 delegados, 7 escrivãos e 2 inspetores. Os voluntários foram submetidos a entrevistas semiestruturadas. Quanto à caracterização da amostra, a média de idade foi de 35 anos, a maioria (68,8%) casada ou com namorado(a), com ensino superior completo (47,9%) e 32,3% com ensino médio ou cursando. Quanto ao sexo dos participantes, 84,4% eram homens e 15,6% mulheres. Ao final da pesquisa, os autores chegaram a 222 respostas sobre os estressores ocupacionais, classificados em 18 categorias que envolvem características do trabalho, relacionamento com colegas e superiores, imagem negativa da classe por parte da sociedade e da mídia e falta de apoio legal e governamental ao trabalho da polícia. O artigo também traz o conceito de coping, as estratégias que os policiais civis utilizam para lidar com o estresse. As mais comuns são isolar-se, não conversar sobre assuntos de trabalho com a família e separar a vida profissional da familiar. Os autores sugerem uma intervenção de profissionais na rotina policial, tanto na estrutura do trabalho quanto no treinamento, a fim de reduzir e enfrentar melhor os fatores de estresse no trabalho.

 

GREEN, Bem. Post-traumatic stress disorder in UK police officers. Current medical research and opinion® VOL. 20, NO. 1, 2004, 101–105

As taxas de prevalência de Distúrbio do Estresse Pós-Traumático (em inglês, PTSD, sigla para post-traumatic stress disorder) em policiais podem ser seis vezes mais altas que as da comunidade. Em policiais, o PTSD é mais severo que em civis? O estudo observa a frequência d sintomas do probelama em 31 policiais e 72 civis e compara os dois grupos. Não foram encontradas diferenças significativas, embora tenha sido observada uma tendência de alto uso de álcool e a tentativa de não falar ou pensar sobre o trauma.

 

MILLER, Laurence. Police Families: Stresses, Syndromes, and Solutions. The American Journal of Family Therapy, 35:21–40, 2007 Copyright © Taylor & Francis Group, LLC. ISSN: 0192-6187 print / 1521-0383 online. DOI: 10.1080/01926180600698541

O artigo muda o foco do policial para suas famílias e oferece indicações de terapias que podem ajudar o policial em sofrimento mental e sua família. Aborda questões sobre crianças identificadas como “o filho do policial” e que tipo de impacto isso tem na vida familiar. Para os autores, psicólogos e terapeutas que atual nessa área devem agir em conjunto com os gestores policiais para encontrar caminhos a fim de reduzir o tensionamento nas famílias de policiais.

 

DESCHAMPS, Frédéric; PAGANON-BADINIER, Isabelle; MARCHAND, Annie-Claude and MERLE, Corinne. Sources and Assessment of Occupational Stress in the Police. Journal of Occupational Health 2003; 45: 358–364.

O artigo avalia os níveis de estresse entre policiais franceses e examina a associação entre a atividade policial, potenciais fatores de estresse e níveis de estresse. A amostra foi feita com um grupo de 617 policiais de níveis variados, que responderam a um questionário com informação de idade e sexo, além da análise dos níveis de estresse. Os pesquisadores observaram que policiais com alto nível de estresse pertencem aos seguintes grupos: mais de 15 anos de serviço, divorciados, com mais de 30 anos e pouco tempo de lazer. A fim de prevenir manifestações de estresse, os pesquisadores alertam para a importância de entender as fontes geradoras de tensão entre policiais.