Entrevista

GEPeSP entrevista: KARINA OKAJIMA FUKUMITSU

Foto: Jefferson Coppola/cedida a Karina Fukumitsu

 


“O suicídio é como um tsunami. Depois dele, é preciso cuidar dos vivos”
Psicóloga aposta em posvenção para fortalecer pessoas de luto pelo suicídio de um parente ou amigo.


 

FERNANDA DA ESCÓSSIA
Pesquisadora-associada do GEPeSP, jornalista e professora universitária do IBMEC Rio; doutoranda no CPDOC/FGV.

Ela começou a conviver com o suicídio quando tinha dez anos de idade, diante das seguidas tentativas de suicídio da mãe. Anos depois, psicóloga e psicoterapeuta, pós-doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade São Paulo (USP), Karina Okajima Fukumitsu, 47, é referência nacional quando se trata do difícil tema das pessoas que tiram a própria vida. Diante dos programas de prevenção do problema, que cuidam de pessoas com comportamento suicida em potencial, sua abordagem inova e vai além: defende a preocupação com quem fica e joga luz sobre o conceito de posvenção, criado pelo psicólogo americano Edwin Shneidman (1918-2009). “O suicídio é como um tsunami. Depois que passa, é preciso cuidar dos vivos”, afirma, adaptando para os tempos atuais o lema da reconstrução de Lisboa após o terremoto de 1755 — “Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos”.
Os vivos sofrem, e muito. As estatísticas tradicionais apontavam que, para cada pessoa que se suicidava, seis eram afetadas. No entanto, dados da Associação Americana de Suicidologia consideram que, para cada pessoa que se mata, pelo menos outras 60 são impactadas, do núcleo familiar ao círculo mais amplo dos colegas de trabalho e escola. Ficam todos enlutados pela dor e pela culpa, em meio a um conjunto de sentimentos inóspitos — e é para esses sobreviventes que deve estar voltada a atenção dos profissionais de saúde, tentando repor laços perdidos com a morte. Filhos de pais que se suicidaram foram o tema de sua tese de doutorado, depois transformada no livro “Suicídio e luto: histórias de filhos sobreviventes” (2013). Sempre com foco nos sobreviventes, Karina também atua no ambiente escolar e coordena num colégio paulista um programa de prevenção e posvenção do suicídio. “Não adianta abrir a escola e fingir que não aconteceu nada”, afirma. Karina é segunda convidada da série GEPESP entrevista. Entre pacientes, aulas e o lançamento de “Vida, morte e luto”, livro organizado por ela com textos de vários autores, Karina conversou com o GEPeSP no amanhecer de um feriado, pontualmente às 8h, por internet e Skype.

A seguir, trechos da entrevista:

Nesse momento em que se fala tanto de suicídio, seu trabalho aponta a necessidade de, depois de um suicídio, cuidar dos vivos. Por quê?

Esse é o motivo pelo qual direcionei meu foco de pesquisa para a posvenção. Em 2005, publiquei o livro “O Suicídio e Gestalt-terapia”. Minha preocupação única era a prevenção do suicídio, trabalhar com pessoas que tentavam se matar para que eles encontrassem novas possibilidades de vida. Em 2006 houve um plano nacional de prevenção ao suicídio que não saiu do papel. Isso me decepcionou bastante. Desde minha infância, minha mãe tentou várias vezes se matar. Eu era militante da ideia de que deveríamos habilitar alunos e profissionais de saúde no manejo do comportamento suicida. Mas fiquei frustrada, me sentia muito sozinha na prevenção do suicídio. Decidir fazer meu doutorado com as pessoas que estavam vivas. Fiz então um projeto para trabalhar com enlutados, as pessoas impactadas pelo suicídio, com quem estava vivo e tentava encontrar maneira de continuar vivo apesar de uma morte. Era um trabalho que eu sempre quis ter como familiar de alguém que tentava se matar. Quis oferecer aquilo que eu nunca tive, principalmente como formação acadêmica. Esse é o plano da posvenção: amparar pessoas que não sabiam o que fazer quando um suicídio acontecia.

Como define o conceito de posvenção?
São todas as ações feitas após um suicídio acontecer. Vem de um termo criado por Shneidman, é ele que traz a ideia da post-vention. No Brasil, o primeiro lugar em que vi foi numa dissertação de mestrado de Artur Cândido. O objetivo da posvenção é acolher pessoas que estavam perto de alguém que se suicidou e minimizar os impactos do suicídio para elas. A posvenção, segundo Shneidman, é a prevenção de gerações. Shneidman ala de sobreviventes do suicídio, de pessoas que conviveram com a pessoa que se matou.

Quem são esses sobreviventes e o que fazer com eles?
Sobreviventes são todas as pessoas impactadas pelo suicídio. Pode ser um transeunte que está passando na rua e, de repente, um corpo cai. Alguém que testemunha um suicídio no metrô. Alguém que atropela uma pessoa que se jogou na frente do carro. Eu aproximo o suicídio de um tsunami: todas aquelas pessoas próximas são impactadas. A estatística inicial era de que, para cada suicídio, existem seis sobreviventes. Mas há estatísticas mais atualizadas, afirmando que a média de sobreviventes pode chegar a mais de 60 pessoas para cada suicídio – cinco membros diretos da família, 15 parentes, 20 amigos e 20 colegas de escola ou trabalho. A gente não sabe a dimensão que um suicídio impacta. O suicídio de alguém nos coloca em uma tríade formada pela impotência, pelo não saber e pela tentativa de respeitar a falta de sentido do outro. Ninguém gosta de lidar com isso. Por isso nosso trabalho hercúleo no processo de luto é compreender que o ato do suicídio é único e exclusivo da pessoa que se matou. A pessoa que se matou é a agente.

O que o suicídio causa para os sobreviventes?
Primeiro, uma busca incessante de explicações. Por quê? É a pergunta que eu mais ouço. Depois, vergonha. Culpa. Torpor. Raiva. Frustração. São sentimentos inóspitos, aquilo que a gente não tem na nossa alma e com o que não tem preparo para lidar. Por isso chamo de inóspito. É um sofrimento que provoca mais sofrimento, é atordoante. Quando o suicídio acontece, você recebe um pacote que não é agradável. Você pode acolher, ajudar a encarar, ou pode negar. Só que isso volta. É um luto que vai se tornando cada vez mais complicado.

O que fazer com essas pessoas?
Dar espaço para que o suicídio seja falado. Acolher esses sentimentos e criar um lugar de hospitalidade para ele. “Por que se calar se falar é tão importante?”, pergunto em minha tese. Quando um suicídio acontece, o silêncio, como processo de negação desses sentimentos inóspitos, é o primeiro que vai invadir. Às vezes a pessoa prefere se calar para não ser questionada. Outra coisa é não tornar o nome da pessoa um tabu. Precisamos ter o cuidado de não fazer dessa experiência um tabu para a família. A pessoa imagina que não falar seria um jeito de ocultar. Uma coisa que a gente precisa é não fingir que a coisa não aconteceu. O que acho mais perturbador é que todo mundo sabe que o suicídio acontece e todo mundo faz de conta que ele não aconteceu.
Outra coisa importante é agrupar. Fazer com que a pessoa sobrevivente tenha o apoio de grupos, porque isso dá aos enlutados a ideia de uma rede de apoio, um emaranhado de fios. Quando acontece um luto, são fios soltos. Por isso a gente tem que agrupar. Outra coisa é ritualizar, incentivar os rituais, para que o enlutado possa sentir que, mesmo que a pessoa morreu, continua com ela.

O que seria esse ritual?
Concretizar a homenagem, se permitir fazer homenagens à pessoa que se matou. Uma das coisas que percebi é que, quando a pessoa se mata, o ato dela é confundido com a história dela. Como o ato é violento, isso se torna um tabu. Uma paciente falou o seguinte: meu pai deixou de ser o pai herói para ser homicida, traidor e suicida. Ela soube pelo rádio do caso do pai: o homem descobre que a amante estava com outro, mata a amante e se mata. Ele imediatamente deixa de ser o pai herói e se torna homicida, suicida e traidor da mãe. Um dos primeiros cuidados que a gente tem que ter é preservar a imagem daquele que se matou. Se a gente fizer isso, sem trazer explicações reducionistas, a gente preserva a família que ficou — e isso é um trabalho de posvenção. A gente não pode confundir o ato com a história. Os rituais são maneiras de homenagear e preservar a pessoa. Todo aniversário de morte da minha mãe faço um post, dizendo que faço posvenção por causa dela, do que aprendi com ela. Tem uma mãe que acende uma vela para o filho. Tem um pai que, no aniversário da morte do filho, vai ao cemitério. São ritos, ações — e, se o suicídio tirou essa pessoa da gente, a gente cria rituais para que consiga continuar. A ação ritualizada permite lidar e driblar essa ação violenta do suicídio. É preciso não confundir o ato com a pessoa.

Parte de seu trabalho é a prevenção do suicídio em escolas, um tema que tem preocupado muito pais e educadores. Pensando nos que ficam, como lidar com adolescentes que se defrontam com um caso do suicídio na escola?
Estou montando numa escola em que houve suicídios o primeiro programa de prevenção e posvenção do suicídio. Quando acontece num nível de instituição, há uma ordem de cuidados. O que fizemos primeiro foi trabalhar e acolher esses sentimentos inóspitos da coordenação, do professores, orientadores e funcionários. O objetivo final são os alunos, os mais impactados. Mas o primeiro momento é habilitar a escola, seus orientadores, para acolher os alunos. Uso a metáfora da máscara de oxigênio: quando tem uma despressurização na cabine, é preciso colocar o oxigênio na frente primeiro para depois colocar nos mais vulneráveis. A escola precisa procurar um profissional que trabalhe com isso. Como a gente iria se posicionar, inclusive frente à mídia? A gente vai ignorar, como aconteceu em outras escolas, ou se organizar diante desse tsunami? Fiz rodas de conversa, palestras com professores e funcionários. É como se a gente precisasse falar uma mesma linguagem sobre suicídio, ter uma posição sobre preservar o aluno e sua família, preservar a instituição — e não falta gente para dizer que a instituição provoca o suicídio. A gente vai precisar encontrar maneiras de proteger e se proteger.
Trago a ideia de que o suicídio é uma morte multifatorial, não tem uma causa única. Buscar causas não é nosso objetivo e nosso foco. Em vez de focar na explicação, focamos: o que vamos fazer diante do que nos aconteceu? Esse é o trabalho de posvenção. Trago também as características do comportamento suicida, que são ambivalência, impulsividade e pensamento rígido. Trago a perspectiva de que uma das formas de entender o suicídio é como ápice do que chamo de um processo de morrência. Saio da explicação reducionista. A maneira como a gente define o suicídio vai direcionar minha conduta. Se defino o suicídio com ato de covardia, quando encontro alguém que quer se matar, vou entender a pessoa como covarde. A maneira como a gente percebe o suicídio define a maneira como a gente vai agir. Tenho que ajudar as pessoas a entenderem de modo diferente. O suicídio é um ato de sofrimento e tem que ser entendido como tal.

Num momento em que o suicídio é tema de séries, aparece em grupos de Whatsapp, qual o papel da comunicação na posvenção?
Informar e não expor. A gente não pode fazer sensacionalismo ou divulgar o modus operandi. O objetivo tem de ser a preservação. Vejo como problema o tratamento superficial, muito rápido. Uma das coisas que errei e faço questão de falar é o uso do verbo cometer, que está no título da tese. Descobrir que o verbo cometer é associado a pecado ou crime. Então não uso mais. Você fala então – se matou. Outra coisa que aparece na mídia é que o suicídio fracassou ou não foi bem sucedido. A gente está sendo convidado a construir uma nova linguagem para falar de suicídio. É preciso uma preocupação em respeitar aqueles sentimentos inóspitos. Se a gente compreende que isso é uma questão do ser humano, começa a tratar com mais humanidade o assunto.

Aqui e em sua tese, a senhora fala um pouco da sua mãe, que tentou o suicídio. Como foi sua experiência com isso e como influenciou sua vida profissional?
Lido com o suicídio desde os meus dez anos. Comecei a entrar na suicidologia pelas tentativas de suicídio da minha mãe. São 37 anos de experiência pessoal com isso, 25 como profissional. Influenciou totalmente. Quando eu tinha dez anos já tinha de lidar com as tentativas de suicídio dela. Meus pais se separaram quando eu tinha 8 anos. Por dois anos minha mãe começou essa história do suicídio, o que chamo de processo de morrência. Eu e minha irmã a levávamos para o hospital, normalmente era o hospital mais próximo. Éramos duas meninas e ouvíamos comentários: “Dona Yoko, de uma próxima vez a senhor tenta de um jeito mais efetivo pra senhora não ficar ocupando nosso tempo. Tem tanta gente que quer viver a senhora insiste em querer se matar!”
Uma criança de 10 anos não tinha respostas, mas a mulher de 47 anos hoje tem. Por isso trago a pergunta, por que se calar em relação ao comportamento suicida se falar é tão importante? Por isso falo aos profissionais de saúde da necessidade de abordar o sofrimento humano de maneira mais respeitosa e acolhedora. Quando fiz 17 anos e tinha que escolher a profissão, escolhi estudar a alma. Mas não queria estudar a alma saudável, isso era uma ferida minha que conduziu. Eu podia ter duas respostas: repetir o comportamento autodestrutivo da minha mãe ou fazer diferente. Eu fiz diferente. Escrevi um livro em 2005 para incentivar lides acadêmicas a terem pelo menos uma aula que trouxesse o manejo do comportamento suicida. Dou treinamento em vários lugares sobre isso.

A senhora também é uma sobrevivente, não?
Sou uma sobrevivente. Quando eu fazia estágio, tinha medo de que um cliente chegasse e dissesse que que queria se matar. Mas minha primeira paciente tinha transtorno bipolar. Falei: “Ah, tranquilo, transtorno bipolar, tudo bem”. Um mês depois ela disse que queria se matar. Falei com minha terapeuta sobre como trataria daquilo sem confundir a paciente com minha mãe. Minha terapeuta me contou a história do curador ferido: “Era uma vez um curador que curava as pessoas atrás de uma cortina. Quando foram ver, descobriram que o curador tinha uma ferida enorme, uma chaga. O curador então disse que só conseguir curar a pessoas por causa da dor que ele também sentia.” Foi com minha mãe que aprendi que era preciso falar abertamente. Quando ela me dizia que queria morrer, eu perguntava, o que está doendo, mãe? Ao telefone, ela disse de novo que queria se matar e eu disse que ainda não era o tempo dela. Nesse minuto, abortei.
Resolvi escrever um livro e me assumir como suicidologista. O mais bonito foi que minha mãe se sensibilizou com isso, virou então uma militante pela causa da prevenção do suicídio. Ela também foi sobrevivente. Foi comigo ao lançamento do livro em 2005, resolveu me ajudar a trabalhar com os enlutados e as famílias. Eu já não estava mais sozinha. Mas vida não é do jeito que a gente quer. Ela desenvolveu uma doença cardíaca grave, tinha o coração crescido. Foi para a UTI 18 vezes. Hospitalizada, dizia: “Agora que eu quero viver, não tenho mais condições”. Minha mãe morreu com 68 anos, três meses antes da defesa da minha tese do doutorado sobre o luto dos sobreviventes de suicídio. Eu não deixo de me sentir como sobrevivente. Aprendi a me ver como sobrevivente da minha história.

 

PARA SABER MAIS

 

O GEPeSP separou para você alguns textos que ajudam a aprofundar a reflexão de Karina Fukumitsu sobre posvenção do suicídio e o luto dos sobreviventes. O primeiro deles é a tese da própria Karina, que deu origem ao livro “Suicídio e luto: histórias de filhos sobreviventes” (2013). A íntegra da tese está disponível aqui.

Localizamos também um PDF disponível online do livro “O Suicídio e Gestalt-Terapia“,  de Karina Fukumitsu.

Sobre o conceito de posvenção, Karina Fukumitsu citou a dissertação de mestrado “O enlutamento por suicídio elementos de compreensão na clínica da perda”, de Artur Mamed Cândido, defendida na Universidade de Brasília em 2011.

Outro texto que ajuda a fazer uma revisão de leitura do conceito é este de John Jordan, psicólogo especializado em prevenção e posvenção do suicídio.

Por fim, sobre as estatísticas dos afetados por um suicídio, deixamos aqui algumas opções, como esta cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria e estes dois artigos:

  1. Suicídio: aspectos reacionais e o processo de elaboração do luto na família, de Lorena Galvão Barreto da silva e Carlos Antônio de Sá Marinho.
  2. Bereavement by suicide as a risk factor for suicide attempt: a cross-sectional national UK-wide study of 3432 young bereaved adults, de Alexandra L Pitman, David P J Osborn, Khadija Rantell e Michael B King.

 

Não deixe de consultar a biblioteca digital do GEPeSP, com vários textos sobre suicídio.