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Os Porquês: falar sobre suicídio de forma qualificada.

Por Caio Brasil
Jornalista e pesquisador do GEPeSP.

A série Os 13 Porquês, da Netflix, levanta a discussão: a mídia deve ou não falar sobre suicídio? Por muito tempo acreditou-se que não abordar o tema evitaria o chamado “efeito imitação”, onde a informação poderia servir de gatilho para que outras pessoas em sofrimento emocional e psíquico tirassem a própria vida. Pablo Nunes, doutorando em ciência política pelo IESP/UERJ e pesquisador do GEPeSP, aponta que após a estréia da série, em 2017, aumentou 35% as buscas sobre formas de suicídio na internet e em 20% as publicações contendo imagem ou vídeo de automutilação no Facebook. Entretanto, nesse mesmo período, o Centro de Valorização da Vida, que oferece apoio psicológico online e por telefone, registrou aumento de 445% no recebimento de e-mails pedindo ajuda e 170% no número de visitações diária ao site. “A série teve o mérito de trazer o tema do suicídio ao debate, um tema tabu que raramente é tratado”, esclareceu o pesquisador.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), abordar o tema é importante para desmistificar e dar informações qualificada, o que favorece a busca por apoio de pessoas em sofrimento. A Organização orienta, em manual, como profissionais de comunicação devem abordar de forma correta o assunto. A informação mal dada ou que descumpra pontos chaves das recomendações – como não explicar métodos – somada ao tabu e preconceito levam a cenários problemáticos. Exemplo disso é a Baleia Azul. Segundo Pablo, o “jogo” onde pessoas eram induzidas ao suicídio não existia, foram os rumores e as notícias mal apuradas que o fizeram surgir. Além disso, o pesquisador aponta para o aumento de grupos nas redes onde pessoas ensinam sobre formas de se matar. “Após as notícias sobre a Baleia Azul, voltamos nossos olhos para outros grupos sobre suicídio no Facebook e no Whatsapp. É um universo quase totalmente desconhecido por nós, mas está em ampla expansão”, alertou.

Entre 2000 e 2013, os suicídios no Brasil aumentaram 31%, segundo o Datasus. O Nordeste é a região que apresentou maior crescimento, subindo 42,7%, seguido do Sudeste, que cresceu 22,3%, e Centro Oeste, 7,8%. A região Norte apresentou redução de 9,1% e o Sul diminuiu 5%. Entretanto, a região Sul, mesmo apresentando decréscimo, é onde mais se comete suicídios no país. Além disso, Pablo alerta que a região é a líder em buscas sobre formas de tirar a própria vida na internet.

As informações apontadas por Pablo são resultados da pesquisa em Comunicação e Saúde Mental, desenvolvida no GEPeSP, e foram apresentadas no Ciclo de Palestras, no dia 5 de junho, na UERJ. O evento reuniu 31 pessoas e encheu o auditório do nono andar da universidade. A assistente social Lindinalva da Gama, uma das ouvintes, disse que “é muito importante debater esse assunto. Vivemos numa época que cada vez mais precisamos falar a respeito. A informação auxilia nessa batalha”.

O GEPeSP promove seu Ciclo de Palestras neste semestre, onde seus pesquisadores apresentam temas relacionados ao suicídios e fatores associados. A próxima será no dia 03 de julho, na sala 9031F da UERJ, no Maracanã, onde Meire de Souza, mestra em sistemas de gestão, apresentará a palestra Sistema de Informação e Saúde do Policial.