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Do Efeito Werther ao Efeito Papageno: um roteiro de leitura sobre o suicídio e o papel da mídia

FERNANDA DA ESCÓSSIA

Pesquisadora-associada do GEPeSP, jornalista e professora universitária do IBMEC Rio; doutoranda no CPDOC/FGV.

 

 

Werther amava Charlotte, que também amava Werther, mas casou com Alberto. Impedido de consumar seu amor, Werther se mata com a arma do rival. Papageno teme perder sua amada Papagena e considera se matar. É demovido de fazê-lo por pessoas que lhe apontam outra alternativa para resolver o problema.

Personagens fictícios de uma novela de Goethe (“Os Sofrimentos do Jovem Werther”) e de uma ópera de Mozart (“A Flauta Mágica”), Werther e Papageno ajudam a refletir sobre uma questão central nos estudos de suicídio: até que ponto falar sobre um suicídio influencia alguém a cometer um ato semelhante? Os textos selecionados neste roteiro proposto pela linha de Comunicação e Saúde Mental do GEPeSP trazem boas indicações para o leitor.

Quando Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, em 1774, espalharam-se pela Europa relatos não confirmados de uma onda de suicídios de jovens que, supostamente influenciados pelo livro, deram cabo da própria vida. Nos séculos posteriores, pesquisadores passaram a analisar um possível efeito de contágio resultante da publicização de um caso de suicídio, especialmente do suicídio de famosos. Após o suicídio da atriz Marilyn Monroe, em 1962, nos Estados Unidos, amplamente noticiado na mídia, as taxas de suicídio no país cresceram. Em 1974, o pesquisador americano David Phillips propôs o termo “efeito Werther” para nomear o efeito de contágio provocado pela divulgação de um caso de suicídio, apontando claramente um efeito de sugestão ou imitação no surgimento de novos casos.

Este roteiro recupera estudos realizados na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia e no Brasil sobre o tema do suicídio e da mídia. O leitor poderá conhecer o texto de David Phillips sobre o efeito Werther, além de artigos com ampla revisão de leitura do tema.

Também constam do roteiro artigos da equipe de Elmar Etzersdorfer e Gernot Sonneck analisando os casos de suicídio após a instalação do sistema de Metrô de Viena, em 1978. Os pesquisadores apontam como o noticiário da mídia funcionava como um ponto de amplificação dos casos, que só faziam aumentar na capital austríaca. Um segundo artigo analisa a campanha realizada junto aos meios de comunicação a fim de motivar uma mudança de abordagem dos casos, sem romantizar nem dramatizar o ato suicida. Depois disso, as taxas caíram num período relativamente curto.

Ao longo do tempo, persiste a reflexão sobre o tratamento dado pela mídia a suicídios e, em especial, suicídios de celebridades. Num texto de 2018, pesquisadores americanos investigam como o suicídio do ator Robin Williams em 2014 aparece como relacionado ao aumento de quase 10% das ocorrências no país. A colaboração brasileira vem da dissertação de mestrado defendida este ano na USP (Universidade de S.Paulo) por Esther Hwang. Numa pesquisa qualitativa, Hwang entrevista cinco jornalistas sobre a forma como a mídia lida com o tema do suicídio, aponta dificuldades e questionamentos cotidianos.

Por fim, o artigo da equipe de Thomas Niederkrotenthaler traz o conceito de efeito Papageno: a mediação que, ao invés de provocar o efeito de imitação do suicídio, tem um efeito de salvação e prevenção.  Como os personagens que, em “A Flauta Mágica”, salvaram Papageno e o demoveram de tirar a própria vida, é possível produzir uma cobertura midiática que, ao invés de romantizar o ato suicida e provocar a imitação dele, seja capaz de alertar para a necessidade de salvar vidas? Esta é uma questão que interessa não só ao mundo acadêmico nem aos jornalistas, mas à sociedade de modo geral. Longe do romantismo do século XVIII, em que o perigo se resumia a um livro, hoje o suicídio está na TV, no celular, nos jogos e nas redes sociais _ em abordagens que muitas vezes estimulam o pior.

Diante da repetição de casos de suicídio na mídia, organismos internacionais e nacionais mudaram de estratégia. Em vez do silêncio, a batalha tem sido pelo uso responsável da informação. Em 1999, a OMS (Organização Mundial da Saúde) lançou uma iniciativa mundial para a prevenção do suicídio, com uma ação específica junto a profissionais de comunicação. Cartilhas dirigidas a comunicadores traçaram diretrizes para uma abordagem jornalística responsável. É tempo de informar sem expor, sem detalhar métodos de suicídio e, principalmente, sem romantizar o suicídio como solução. E aqui tomo a liberdade de falar não apenas como pesquisadora do GEPeSP, mas como jornalista que, ao ler os textos deste roteiro, voltou a se espantar com o impacto concreto de uma notícia de suicídio _ assim como me espanto cotidianamente com o tratamento muitas vezes banalizado dado ao tema na cobertura jornalística cotidiana. Noticiar o sofrimento exige informar sem expor, exige responsabilidade e cuidado. Que nós, jornalistas, possamos apostar menos na exploração da dor alheia e mais na prevenção. Menos no efeito Werther e mais no efeito Papageno.

 

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Boa leitura! Para acessar os textos é só clicar nos links. Não deixe de consultar também a biblioteca virtual do GEPeSP. E mais: o GEPeSP oferecerá em breve o curso  Comunicação como ferramenta de prevenção do suicídio.  

 

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Phillips, David P. “The Influence of Suggestion on Suicide: Substantive and Theoretical Implications of the Werther Effect”. American Sociological Review, Vol. 39, No. 3 (Jun., 1974), pp. 340-354.

Texto seminal nos estudos sobre suicídio e mídia, mostra que casos de suicídio aumentaram logo depois que notícias de suicídios foram publicadas pelos jornais no Reino Unido e nos Estados Unidos, no período de 1947 a 1968. Quanto mais publicidade se deu a um caso, mais aumentaram os casos na sequência do noticiário na área onde as reportagens foram publicadas. O texto examina as alternativas para explicar este fenômeno, atentando que há uma influência do sugestionamento no suicídio, analisando implicações teóricas e metodológicas disso. É neste texto que Phillips apresenta o conceito de “Efeito Werther”, ou seja, a forma como, por meio do efeito de imitação, a publicização de um caso de suicídio pode provocar outras ocorrências.

 

Wasserman, Ira M. “Imitation And Suicide: A Reexamination Of The Werther Effect”. American Sociological Review, 1984, Vol. 49 (June:427-436).

O artigo reexamina os conceitos clássicos de David Phillips sobre a cobertura de suicídios e o subsequente aumento de casos de suicídio _ o efeito Werther. O estudo alerta para a diferença sobre como são noticiados suicídios de celebridades e de pessoas comuns, e observa que o aumento dos casos de suicídios ocorre especialmente nos meses em que são noticiados suicídios de celebridades _ num efeito de imitação muito mais seletivo do que a hipótese original de Phillips.

 

SONNECK, G., ETZERSDORFER, E., NAGEL-KUESS, S. “Imitative Suicide On The Viennese Subway”. Soc. Sci. Med. Vol. 38, No. 3, pp. 453–457, 1994. Printed in Great Britain.

O estudo apresenta o caso de Viena e relata como o número de suicídios no metrô da capital austríaca aumentou dramaticamente entre 1984 e meados de 1987. Na segunda metade de 1987 houve um decréscimo de 75% dos suicídios, mantido por cinco anos. A redução começou quando um grupo da Associação Austríaca para Prevenção de Suicídio desenvolveu guias de mídia e iniciou discussões com a mídia que culminaram com um acordo de não noticiar casos de suicídio. As características de suicídios e de tentativas de suicídio no metrô foram discutidas, sendo criados então guias para a mídia na cobertura de suicídios.

 

ETZERSDORFER, Elmar; SONNECK, Gernot. Preventing suicide by influencing mass-media reporting. The viennese experience 1980–1996, Archives of Suicide Research, 4:1, 67-74, (1998). DOI: 10.1080/13811119808258290

O texto relata uma experiência de campo sobre os meios de comunicação de massa e o suicídio, analisando como, após a implementação do metrô de Viena em 1978, houve grande número de casos de suicídio neste meio de transporte. Os meios de comunicação reportavam os casos de modo muito dramático, o que levou a uma campanha realizada nos meios e à criação de guias para a mídia, em 1987, sobre como noticiar os casos. A cobertura mudou muito, e os casos passaram a cair naquele mesmo ano, permanecendo em níveis baixos. As conclusões apontam para a possível redução do chamado comportamento suicida por imitação, influenciado pela cobertura dos meios de comunicação. O artigo apresenta essa experiência e faz considerações sobre o papel da mídia no trabalho de prevenção.

 

ETZERSDORFER, Elmar; VORACEK,  Martin & SONNECK, Gernot. “A Dose-Response Relationship Between Imitational Suicides and Newspaper Distribution”, Archives of Suicide Research, 8:2, 137-145, 2004. DOI: 10.1080/13811110490270985.

O estudo investiga como, após o suicídio, com arma de fogo, de uma celebridade austríaca, se deu a cobertura midiática no maior jornal da Áustria. O número de suicídios com arma de fogo nas três semanas seguintes aumentou em relação às três semanas anteriores. Uma análise regional mostrou forte correlação entre os casos e os locais onde tal jornal era mais distribuído, o que, no entendimento dos pesquisadores, reforça a influência da cobertura midiática no comportamento suicida.

 

JONAS, Klaus. Modelling and suicide: A test of the Werther effect. British Journal of Social Psychology (1992), 3 1, 295-306.

O estudo investiga se notícias sobre o suicídio de pessoas famosas provocam um efeito de imitação, levando a novos casos. Para isso, examina casos de suicídio no estado alemão de Baden-Württemberg no período de 1968 a 1980 e de que modo casos proeminentes de suicídio foram noticiados. Os resultados indicaram um aumento que variou de pequeno a substancial nas semanas seguintes ao noticiário. O artigo examina alternativas sociais e psicológicas para lidar com isso, alertando que os dados indicam consistência para a hipótese do efeito de imitação em casos de suicídio.

 

Gould, Madelyn S ; Kleinman, Marjorie H ; Lake, Alison M; Forman, Judith; Midle, Jennifer Bassett.  “Newspaper coverage of suicide and initiation of suicide: clusters in teenagers in the USA, 1988–96: a retrospective, population-based, case-control study”. Lancet Psychiatry 2014; 1: 34–43; Published Online: May 2, 2014.

O estudo investiga se um fator externo _ notícias de suicídio_ têm algum papel na emergência de surtos de suicídio. Foram analisados casos de jovens de 13 a 20 anos, nos Estados Unidos, de 1988 a 1996, antes do advento das mídias sociais; e a cobertura de jornais naquelas comunidades, entre o primeiro e o segundo suicídio. O estudo observa como o noticiário inclui a palavra suicídio em suas primeiras páginas e se detalha métodos. O objetivo é auxiliar na prevenção do suicídio e observar a influência do noticiário naquelas comunidades.

 

Stack, Steven. “Celebrities and Suicide: A Taxonomy and Analysis, 1948-1983”. American Sociological Review, Vol. 52, No. 3 (Jun., 1987), pp. 401-412.

O estudo foca o suicídio de celebridades, usando para o conceito de celebridade uma taxonomia baseada nas leis de imitação de Tarde e no conceito de elite de Pareto. Analisa ainda como os valores da cultura de massa e crenças como pontos de identificação. Observa que o efeito de imitação vale mais para celebridades do mundo da política e do entretenimento e analisa de que modo a publicação desses suicídios é relacionada à incidência mensal de novos casos.

 

Fink, David S.; Santaella-Tenorio, Julian; Keyes, Katherine M.  “Increase in suicides the months after the death of Robin Williams in the US”. PLoS ONE 13 (2): e0191405. Fevereiro, 2018.

O artigo investiga a ocorrência de suicídios depois da morte do ator Robin Williams em agosto de 2014. Os pesquisadores estimaram o número esperado de suicídios para o período estudado, com base nos dados oficiais, e concluíram que seriam esperados 16,849 casos de agosto a dezembro de 2014; no entanto, houve 18.690 suicídios no período, sugerindo um aumento de 1.841 cases (aumento de 9.85%). Os autores encerram afirmando que o artigo adiciona elementos à relação entre suicídios de celebridades, a cobertura midiática e a ocorrência de novos casos. Mesmo sem determinar com certeza a relação entre a cobertura e os casos, os autores alertam para a necessidade de uma discussão com a indústria da mídia sobre o efeito de imitação.

 

Stack, S. “A reanalysis of the impact of non celebrity suicides – A research note”. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol (1990) 25:269-273.

O artigo afirma que muitos trabalhos prévios sobre suicídio e cobertura da mídia costumam priorizar apenas a influência dos suicídios de celebridades sobre o público, e afirma que sua perspectiva é focar nos casos de pessoas que não são celebridades, observando o impacto disso na ocorrência de novos episódios. Alerta ainda para a necessidade de políticas de mídia que discutam se e como dar publicidade a casos de suicídio de alto risco.

 

GOULD, Madelyn S. Suicide and the Media. Division of Child and Adolescent Psychiatry and Division of Epidemiology, Columbia University and New York State Psychiatric Institute, New York, New York 11024, USA

O texto faz uma revisão de literatura de estudos sobre o impacto da cobertura midiática no suicídio, lembrando que o impacto ocorre tanto para casos reais como para casos ficcionais. Também percorre textos que analisam os fatores que podem moderar tal impacto midiático. Os fatores incluem tanto características das histórias como atributos individuais e o contexto social. Apresenta recomendações sobre como reportar casos de suicídio, com o objetivo de minimizar o risco de imitação. O artigo conclui que não há como negar o efeito de contágio nos casos do suicídio e reforça a importância de programas de prevenção.

 

Qijin Cheng1*, Feng Chen2 and Paul SF Yip1,3.  “The Foxconn suicides and their media prominence: is the Werther Effect applicable in China?”, BMC Public Health 2011, 11:841

Suicídios Foxconn foi a forma como ficou conhecido um surto de suicídios e tentativas de suicídio durante o ano de 2010, todos relacionados a uma companhia gigante do setor elétrico, a Foxconn. O estudo examina o efeito de imitação nesses casos e investiga padrões na forma sobre como foram reportados pela mídia na China, em Hong Kong e em Taiwan. Foram coletados artigos publicados pelos principais jornais dessas regiões. Os resultados indicam que houve uma relação temporal entre os casos, e deles com o noticiário. O artigo aponta a necessidade de mais pesquisas sobre o tema, além de um trabalho de prevenção e discussão do tema com a mídia.

 

NIEDERKROTENTHALER, Thomas; VORACEK, Martin; HERBERTH, Arno; TILL, Benedikt; STRAUSS, Markus; ETZERSDORFER, Elmar;  EISENWORT, Brigitte; SONNECK, Gernot. “Role of media reports in completed and prevented suicide: Werther v. Papageno effects”. The British Journal of Psychiatry (2010). 197, 234–243. doi: 10.1192/bjp.bp.109.074633

O artigo discute o papel da mídia no suicídio a partir de dois conceitos: o efeito Werther, definido por Phillips como o aumento dos suicídios motivados pelo efeito de contágio ou imitação após a publicização de um caso de suicídio; e o efeito Papageno, a forma como a prevenção do suicídio pode demover a alguém da ideia de se matar. O efeito Papageno deve seu nome a um personagem da ópera “A Flauta Mágica”, de Mozart, que pensava em cometer suicídio até que três espíritos lhe apontam outra forma de resolver seus problemas. O artigo analisa 497 casos de suicídio reportados pela mídia austríaca durante seis meses de 2005, bem como a relação entre os casos noticiados e as taxas de suicídio. Conclui que noticiar tais casos impacta no aumento de ocorrências, mas reflete para o fato de que tal impacto pode não ser apenas danoso, atentando para possíveis efeitos positivos de uma abordagem que tenha foco na prevenção do problema.

 

MEINDL, James N.; IVY, Jonathan W.. “Reducing Media-Induced Mass Killings: Lessons From Suicide Prevention”. American Behavioral Scientist 1–18; © 2018 SAGE Publications Reprints and permissions: sagepub.com/journalsPermissions.nav. DOI: 10.1177/0002764218756918

Assassinatos em massa são acontecimentos complexo e multifacetados, ligados a uma série de variáveis. Uma delas permite observar que, quando uma chacina ocorre, há, segundo os autores deste texto, a chance de que outra ocorra em breve, o que aponta para a possibilidade de um efeito de contágio e imitação generalizada. O artigo analisa como a cobertura midiática pode acabar levando a modelos que inspiram futuras chacinas. Observa os guias de mídia para a cobertura do suicídio e outros comportamentos imitativos a fim de identificar estratégias capazes de minimizar o efeito de imitação e a possibilidade de que a ocorrência de assassinatos em massa acabe induzindo outros.

 

HWANG, Esther. Suicídio por contágio e a comunicação midiática.  São Paulo: Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 2018. Dissertação de Mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano.

Em pesquisa qualitativa, a autora buscou compreender como a mídia aborda o suicídio e a possibilidade de influenciar o seu contágio. Realizou entrevistas abertas com cinco jornalistas que atuam na cidade de São Paulo, com o intuito de investigar como o suicídio é noticiado nos meios de comunicação. Hwang conclui que os jornalistas contestaram o risco de contágio, mas também apontaram a possível influência midiática nesse processo, sendo que reportagens sobre suicídios têm influência positiva ou negativa dependendo da abordagem e dos temas incluídos. Apontou também algumas dificuldades apontadas pelos jornalistas em seu dia a dia, tais como rapidez na publicação, busca por audiência, imediatismo e pressão sofrida no trabalho, que têm como consequência a publicação de reportagens menos reflexivas e mais informativas. A pesquisa reflete sobre o papel dos meios de comunicação como forma de colaborar com a prevenção do suicídio e evitar o efeito do contágio por meio da mídia.