Entrevista

“Há muitas razões para prevenir o suicídio, e a principal é salvar vidas”

Psicóloga Daniela Reis e Silva é uma das coordenadoras do 2º Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio, que acontece em Vitória (ES)



FERNANDA DA ESCÓSSIA
Pesquisadora-associada do GEPeSP, jornalista e professora universitária do IBMEC Rio; doutoranda no CPDOC/FGV.


Há dois anos, 120 pessoas se reuniram em Belo Horizonte para o primeiro Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio. Era o primeiro encontro do tipo no país, organizado pela Abeps (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio). Um certo estranhamento rondava o público a propósito do tema do encontro – por que mesmo falar de suicídio? Por que estudar um tema que põe o dedo em tantas feridas?

Dois anos depois, as feridas estão ainda mais doloridas. O Brasil assiste, atônito, ao crescimento contínuo de suicídios na faixa etária que deveria ser alegre por natureza, a juventude. Na USP (Universidade de São Paulo), ao menos quatro casos de suicídio foram registrados em maio e junho deste ano, obrigando a instituição a criar um escritório de Saúde Mental. O mal-estar persiste – e se fortalece o apelo por uma rede de socorro mais preparada para lidar com o tema.

Este é um dos assuntos do 2º Congresso Brasileiro de Prevenção ao Suicídio, organizado pela Abeps em Vitória, no Espírito Santo, nos dias 31 de agosto e 1º de setembro. Há mais de 600 participantes inscritos para ouvir palestras de convidados nacionais e internacionais. Os temas incluem desde o suicídio em grupos vulneráveis, como jovens e população LGBT, até o papel da rede pública e do voluntariado. Uma das palestrantes convidadas é Jennifer Muehlenkamp, professora assistente de Psicologia na Universidade de Wisconsin-Eau Claire. Dentre os estudos sobre suicídio, a norte-americana se dedica a um tema em particular: a automutilação sem intenção suicida (ASIS), quando a pessoa se fere intencionalmente e de modo repetido.

Outro convidado é Diógenes Martins Munhoz, chefe do Departamento de Resgate do Corpo de Bombeiros Militar de São Paulo. O capitão Diógenes é idealizador e instrutor do Curso de Abordagem a Tentativas de Suicídio do CBMSP, e ministrará durante o Congresso um treinamento semelhante. O GEPeSP (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção) conversou com a psicóloga Daniela Reis e Silva, integrante da Associação de Suicidologia da América Latina e Caribe, diretora da Abeps e uma das organizadoras do evento.

Na avaliação de Daniela, ainda há muito o que fazer para melhorar a prevenção do suicídio no país. Por outro lado, há muitos motivos para prevenir o problema, e o maior deles é que a prevenção pode, sim, salvar vidas. Doutoranda em Psicologia Clínica (PUC-SP), Daniela é coordenadora do Grupo API/ES – Apoio a Perdas Irreparáveis e Grupo de Trabalho de Prevenção do Suicídio no Espírito Santo (GTPS-ES). Ela destaca a importância de grupos voluntários que têm atuado na prevenção do suicídio. No Brasil, o mais conhecido deles é o CVV (Centro de Valorização da Vida), mas existem muitos outros. 

“Temos visto em todo o país grupos formados inicialmente por amigos e parentes de pessoas que se suicidaram. Hoje eles contam também com profissionais de saúde. É um trabalho fundamental”, afirmou Daniela. A seguir, trechos de sua entrevista:

Quais os objetivos do Congresso?

Divulgar o tema, reduzir os tabus e preconceitos a respeito dele, colaborar na formação e informação de profissionais e leigos que possam atuar na área e fortalecer a rede nacional de organizações que trabalham com esse assunto, para que elas possam atuar de forma colaborativa em todo o Brasil. Há muitas razões para prevenir o suicídio, e temos de mostrar isso.

Quais as razões para prevenir?

A maior parte dos suicídios pode ser evitada. Se as pessoas têm acesso a um adequado tratamento, se têm possibilidade de fortalecer redes e fatores de proteção, conseguimos evitar uma morte e prevenir problemas por várias gerações. Pois o impacto de um suicídio é sentido por muitas gerações, principalmente por ser tratado como um tabu. As pessoas evitam falar do assunto e acham que, ao evitar, impedem que aconteça. Existem muitos preconceitos e muitos mitos que só atrapalham na prevenção.

Quais são os mitos?

Eu destacaria alguns: que quem fala de suicídio só quer chamar a atenção; que quem ameaça não faz; que crianças não cometem suicídio nem pensam em suicídio; que falar sobre suicídio estimula a pessoa a cometer suicídio.

E o que é verdade?

A primeira coisa é que quem fala em suicídio está expressando um sofrimento, e quem ameaça é sim, capaz de praticar. Crianças pensam em suicídio. Muitas vezes, nas conversas com pessoas que tentaram o suicídio, elas relatam que pensam naquilo desde a mais tenra idade, seis, cinco anos. Por fim, falar sobre suicídio não estimula a pessoa a cometer suicídio. Ao contrário, a possibilidade que a pessoa tem de falar sobre o que está sentindo pode ajudá-la a lidar com esses sentimentos.

Em sua avaliação, como está hoje a rede de apoio à prevenção do suicídio no país?

Vamos ser tentar ser otimistas (risos…) Eu diria que existe muito a ser feito. Precisamos ter a conscientização do poder público para ermos uma política efetiva e eficaz de cuidados com a saúde mental. É preciso capacitar os profissionais de saúde pública, além de conscientizar a população e a mídia, que tem um papel significativo nesse contexto.

Como a mídia tem se comportado, em sua opinião?

A mídia, em geral, não tem seguido as recomendações na Organização Mundial de Saúde sobre como tratar do suicídio. Estudos mostram que a divulgação inadequada de casos acaba gerando uma onda de novos casos de suicídio. Vou dar um exemplo aqui do Espírito Santo, pois temos acompanhado casos de suicídio que acontecem na ponte entre Vitória e Vila Velha. Depois de uma série de notícias sobre suicídio na ponte, os casos aumentaram. É o efeito Werther, analisado por especialistas (sobre mídia e efeito Werther, leia mais aqui). Houve um caso em que uma equipe de socorro ficou cinco horas conversando com a pessoa que estava tentando suicídio. Enquanto isso, pessoas que estavam passando filmavam a ação, colocavam nas redes. As pessoas passavam e gritavam: “Pula logo, está atrapalhando o trânsito”. Há até um novo protocolo, fechar a ponte quando há uma ocorrência, e isso provoca um debate enorme. Logo depois disso, houve mais tentativas, e acompanhamos os números com a Polícia Militar e a Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde.

Como noticiar o suicídio de modo responsável?

É imprescindível que a mídia pegue para si esta questão, mostre a relevância do problema, mas acompanhando as orientações da OMS. Não se deve detalhar métodos. Não usar, por exemplo, fotografias do momento, não romantizar o suicídio. É preciso informar que é possível tratar e prevenir, além de informar os locais que fazem acolhimento e tratamento.

Que temas serão abordados no Congresso?

A automutilação sem intenção suicida, por exemplo. É um problema crescente que atinge pessoas cada vez mais jovens. Preocupa porque as pessoas (profissionais e público leigo) não estão preparadas para lidar com esta demanda crescente. Temos recebido vários pedidos de ajuda por parte de escolas. A ideia é falar abertamente sobre este problema, possibilitando a veiculação de informações sobre o diagnóstico, bem como o diagnóstico diferencial em relação a outras patologias associadas e também sobre o tratamento. Vamos tratar também do trabalho com suicídio na área de segurança pública, da capacitação de profissionais da rede de prevenção ao suicídio, da abordagem responsável na mídia. Vamos abordar a questão do voluntariado na prevenção do suicídio. Temos visto em todo o país grupos formados inicialmente por amigos e parentes de pessoas que se suicidaram. Hoje eles contam também com profissionais de saúde. É um trabalho fundamental.

O Congresso também vai tratar da formação de profissionais para evitar o suicídio. O Capitão Diógenes Munhoz, do Corpo de Bombeiros de São Paulo, dará um treinamento. O que vocês esperam com esse curso? 

Esperamos suscitar o interesse de outros profissionais de segurança pública de se capacitar para atender a demanda de forma adequada, bem como permitir a outros profissionais conhecer este tipo de trabalho específico, e colaborar na multidisciplinaridade dos atendimentos a crises suicidas.  


Outro foco do Congresso é o sofrimento mental dos profissionais de segurança, policiais de várias corporações. Como a Abeps tem percebido esse problema e o que pode ser feito? Como isso será tratado no Congresso?

Há um grande índice de suicídio entre profissionais de segurança, e isso é uma demanda negligenciada pela maior parte das corporações. A ideia é sensibilizar o público, bem como os gestores sobre a importância de cuidar deste sofrimento mental sistematicamente, com conhecimento das especificidades inerentes à prática destes profissionais, considerados como grupo de risco, em função da própria atividade (alto grau de estresse, ocorrências graves, traumas não identificados/tratados, porte de arma).

O Congresso vai abordar os chamados grupos vulneráveis ao suicídio. Quais são hoje esses grupos?

Existem vários, mas no Congresso trataremos da população LGBT, de indígenas e estudantes. Também falaremos de políticas públicas para o setor, do trabalho na emergência, do papel do Terceiro Setor e de ONGs em geral. Muito tem se falado do sofrimento mental entre adolescentes e jovens, vamos tratar disso.

O tema do sofrimento mental da juventude tem preocupado a sociedade brasileira, com ocorrências entre universitários e secundaristas. Que tipo de abordagem o Congresso fará sobre este assunto?

Há um estudo específico sobre estudantes de Medicina, mas o problema afeta estudantes de forma geral, e a idade em que eles tentam vem diminuindo. Também usam formas cada vez mais letais. Temos recebido repetidos socorros de escolas de nível médio diante de alunos com ideação suicida clara. É um tema muito complexo, associado a vários fatores. Nossa abordagem será de sensibilização e divulgação da importância de cuidar deste segmento da população, negligenciado por acharem que apenas querem chamar a atenção.