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Escola: lugar de prevenção do suicídio

Por Caio Brasil,
Jornalista e pesquisador do GEPeSP.

O setembro amarelo foi marcado por luto na rede municipal de educação de Duque Caxias. No mês dedicado a reflexões, intervenções e debates acerca da prevenção do suicídio, dois professores da rede tiraram a própria vida. Os casos causaram comoção entre profissionais de educação da cidade, e foram prestadas homenagens com um minuto de silêncio em debate do GEPeSP com representantes de unidades educacionais da cidade, no Museu Ciência e Vida, no Centro de Duque de Caxias, no dia 21/09. A atividade teve apoio da Secretaria Municipal de Educação.

As unidades educacionais são importantes espaços para trabalhar a prevenção, e o GEPeSP desenvolve o Projeto Escola, iniciativa ainda experimental que trabalha formas de esclarecimento, prevenção e detecção de fatores de risco e sinais de desenvolvimento de comportamento suicida entre estudantes. Os casos de suicídios entre os professores podem ser visto como alerta e o debate do dia 21/09 serviu para, além de esclarecer sobre o fenômeno do suicídio, pensar em políticas públicas que favoreçam a prevenção de forma eficaz.

O debate reuniu cerca de 50 pessoas e iniciou com dinâmica proposta pela pedagoga e coordenadora e capacitadora de professores na Associação pela Saúde Emocional de Crianças, Paola Centieiro, convidando para pensarmos sobre o cuidado que temos com nós mesmos e formas alternativas de lidar com as frustrações e sentimentos considerados negativos, como a raiva, por exemplo. “Acumulamos sentimentos ruins durante o dia inteiro, no final estamos exaustos, sem saber o porquê. A verdade é que temos o hábito de lidar com problemas e não dos sentimentos”, contou a pedagoga, que completou perguntando: “o que vocês fazem para sentirem-se melhores diante desses sentimentos? Precisamos ampliar nosso leque de formas de lidar com eles”.

A coordenadora geral do GEPeSP e cientista política Dra. Dayse Miranda alertou que Duque de Caxias é o segundo município com maior taxa de suicídio entre jovens de 15 a 19 anos do estado do Rio de Janeiro, atrás apenas de Nova Iguaçu. Dentro dessa faixa etária, no Brasil, o suicídio é a 3° maior causa de morte para o sexo masculino e a 8° para o feminino. Além disso, casos de automutilação entre estudantes é um fenômeno crescente. A pesquisadora apontou o bullying como um dos principais fatores de risco, mas também chama a atenção para casos de crianças e adolescentes que perderam pais de forma violenta. A Baixada Fluminense é uma região com índices elevados de homicídios, de acordo com o Atlas da Violência 2018. A psicóloga e também pesquisadora do GEPeSP Michelle Cristine enfatizou sobre os cuidados clínicos e a necessidade de identificação e de acompanhamento desses jovens. Ao final, o professor de história Diogo Sardinha apresentou um painel sobre a experiência e os resultados das rodas de conversas sobre suicídio que tem desenvolvido no âmbito do Projeto Escola, juntamente com a psicóloga Michelle Cristine, e aponta para a necessidade de novas iniciativas no ambiente escolar.

Segundo Giselle Teixeira, diretora do departamento de pesquisa e formação Paulo Freire da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, debater o tema “é importante para compreender e intervir com ações de prevenção. Esse debate foi um divisor de água, a partir de agora vamos ampliar essa parceria e pensar políticas de prevenção”. A orientadora educacional Fernanda Vaz, que trabalha na Escola Municipal Walter Russo e Escola Municipal João Délio e uma das ouvintes do debate contou que foi “esclarecedor e importante para a formação. Passamos por diversos dilemas desses na escola todos os dias. Chegou-me o caso de uma aluna que se cortou e fiquei desorientada, não sabia o que fazer e para onde encaminhar”, e relatou sobre as dificuldades para cuidar do caso: “precisei recorrer ao Conselho Tutelar para conseguir acompanhamento porque a família achava que era bobagem. Infelizmente ainda não tive retorno, o eu me conforta é que conversei com essa aluna e ela nunca mais se feriu”. Duque de Caxias tem apenas um Centro de Atenção Psicossocial, no Centro, e que, além de não ser suficiente para demanda, dificulta a busca de atendimento de pessoas que moram em bairros mais afastados.