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GEPeSP lança piloto de prevenção ao suicídio em ambiente escolar


Por Caio Brasil,
Jornalista e pesquisador do GEPeSP.

GEPeSP lança programa EscolaQPrevine, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias. O programa tem objetivo de formar multiplicadores na prevenção de violências autoprovocadas (automutilação, tentativa de suicídio e suicídio consumado) em ambiente escolar e faz parte do Projeto Escola: uma iniciativa piloto que visa produzir conhecimento sobre a saúde emocional de jovens e adolescentes em ambiente escolar, bem como oferecer ferramentas de prevenção do suicídio para professores e educadores.

O programa EscolaQPrevine atua a partir dos conceitos de prevenção da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Centro de Valorização da Vida (CVV), e de posturas e práticas da metodologia educacional desenvolvida pela Associação de Saúde Emocional de Crianças (ASEC). A proposta é trabalhar com professores, funcionários e alunos temas relacionados aos resultados do diagnóstico de saúde emocional de adolescentes da escola integrante do Projeto Escola, à neurociência, educação emocional, ao desenvolvimento de habilidades como empatia. A meta é oferecer um conteúdo especializado que permita a escola desenvolver a própria ferramenta de prevenção à violência autoprovocada.

O lançamento ocorreu em evento no dia 18 de outubro, na Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, em Jardim Imbarie, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Para a vice-diretora da escola Ingrid Gonçalves, “o projeto é muito importante, é uma espécie de formação continuada. Lidar com adolescente é muito complicado e contribuirá muito se tivermos as ferramentas para trabalhar esses aspectos”. A vice-diretora relata casos de estudantes que buscam ajuda na direção: “recebemos alunos que emocionalmente estão doentes, que se sentem mal, e tentamos ajudar com diálogo, com conversa. A formação nos dará mais ferramentas para ampará-los”.

A escola foi selecionada para receber o piloto por ter apresentado maior taxa de adesão da comunidade escolar ao programa e por ser uma das mais vulneráveis em termos de violência autoprovocada, de acordo com a pesquisa. A cidade de Caxias é a segunda do ranking de suicídios de jovens de 15 a 29 anos do estado do Rio de Janeiro, com 55 casos registrados entre 2000 e 2015, atrás apenas de Nova Iguaçu, com 64 suicídios, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/DATASUS). Entretanto, a coordenadora do GEPeSP e pesquisadora Dra. Dayse Miranda ressalta que “embora a base de dados de mortalidade do SIM seja a referência do país, o número de suicídios de jovens de 15 a 29 anos em nível municipal é pouco confiável, pois há muitos casos subnotificados”.

Em função da má qualidade das informações das mortes por suicídio juvenil, desconhecemos, por exemplo, os padrões de tendências do suicídio de adolescentes de 10 a 14 anos nas cidades brasileiras. Por essa razão, conforme aponta a coordenadora do GEPeSP “não sabemos se a taxa de suicídio desse grupo etário cresceu nos municípios da Baixada Fluminense, local historicamente marcado por registros altíssimos de mortes violentas.  Podemos dizer que a mesma tendência de crescimento das taxas de suicídio de jovens e adolescentes, em diferentes contextos socioculturais, como nos EUA e na Europa, é também registrada nos estados e regiões do Brasil, nos últimos 15 anos, acordo com os dados da saúde. Nos municípios da Baixada Fluminense, objeto de estudo de nossa pesquisa, encontramos apenas registros de mortes de suicídio de jovens de 15 a 29 anos. Para o grupo de adolescentes de 10 a 14 anos, não tivemos informações confiáveis devido ao volume de casos perdidos (missings). Essas lacunas precisam ser preenchidas. O primeiro passo nessa direção é o investimento na produção de estudos sobre as dinâmicas de mortes por suicídios de jovens e adolescentes no nível local. Assim, será possível fazer a prevenção do suicídio juvenil também no nível municipal”.

A cientista política e doutoranda pelo IESP/UERJ Marcele Frossard, uma das integrantes do GEPeSP que entrevistou estudantes da rede de Caxias, contou que um fator que apareceu como fundamental foram as dificuldades dos adolescentes para lidar com o luto: “a maioria deles tem os avós como figuras muito presentes. Mas os avós já estão com uma idade avançada e essa perda é muito difícil. Um outro fator é o impacto da violência. É muito comum para eles verem corpos, verem pessoas conhecidas morrendo ou agonizando. Esses pontos têm sido recorrentes nas entrevistas. O luto é disparado o principal fator observado”.

Além de ter o segundo maior número de suicídio de jovens de 15 a 29 anos da Baixada Fluminense, Duque de Caxias foi escolhida por ser historicamente marcada pela violência. Segundo o Atlas da Violência, a cidade apresenta taxa de 47,2 assassinatos para cada 100 mil habitantes, maior que média nacional, com 29,8. Segundo Dayse Miranda, “estudos norte-americanos mostram que pessoas em contato contínuo com a violência se tornam mais suscetíveis a desenvolver sintomas do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Ou seja, a violência afeta a saúde emocional. Achamos que deveríamos começar por essa hipótese porque é o primeiro passo para descobrir quem são esses jovens vítimas de violência autoprovocada. Podemos afirmar que jovens vítimas de mortes por suicídio são os mesmos suscetíveis aos homicídios?”.

O lançamento do programa contou com a presença de representantes da Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias, professores, funcionários, estudantes e membros da equipe do GEPeSP. Para a psicóloga da Secretaria de Educação Marcela Giro, “esse projeto é de grande importância devido ao alto índice de alunos vítimas de violência autoprovocada, que se deparam com o suicídio como forma de superar um sofrimento. Implementar um programa que visa a prevenção dentro da rede do município de Caxias é de grande valia para os profissionais que estão no contexto diário e se deparam com essas questões. Dar o conhecimento para professores lidarem com essa questão é determinante”.

O professor de história e integrante do GEPeSP Diogo Sardinha conduziu rodas de conversa com estudantes do projeto. Ele contou ficar assustado com o grande número de adolescentes que declararam ter vivenciado automutilação e tentativas de suicídio em algum momento de suas vidas. O professor também confessou ter ficado surpreso com a “familiaridade” dos alunos com os temas abordados na roda: “eles sabiam do que a gente estava falando, de crise ansiosa, de depressão. Estavam inteirados sobre o assunto e eu percebia que havia uma necessidade muito grande em falar, mesmo daquela maneira despojada do adolescente de se expressar. Sabem que é um problema, sabem que é um sofrimento, querem falar mas não têm um lugar para isso. Além de ser tabu, eles não tinham um espaço adequado para se expressarem. Não conseguem falar em casa, às vezes é complicado um professor falar disso. Eu acredito muito nesse projeto”.

O programa EscolaQPrevine está estruturado em 8 encontros, conduzidos por profissionais de diversas áreas (sociologia, educação, saúde e comunicação) e que serão realizados entre outubro de 2018 a março de 2019. Os colaboradores são voluntários e ligados a instituições parceiras do GEPeSP, como a Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), a Comunicação e Expressão Consultoria Especializada Ltda, o Instituto GATE, e a Gestão, Assessoria e Treinamento em Educação (Instituto GATE).