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Dossiê: Programa EscolaQPrevine


Por Ana Beatriz Ribeiro e Caio Brasil,
Jornalistas e Pesquisadores do GEPeSP.


 

O Programa EscolaQPrevine tem como objetivo desenvolver habilidades emocionais para a vida de professores, funcionários e alunos, além de formar multiplicadores em Prevenção de Violências Autoprovocadas em Ambiente Escolar.

A Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, em Jardim Imbarie, Duque de Caxias, foi selecionada para receber o piloto do programa. Segundo a pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) em escolas da cidade, a EM Roberto Weguelin liderou o ranking de vulnerabilidade às violências autoprovocadas (ideação suicida, tentativa de suicídio e automutilação) declaradas pelos alunos de forma sigilosa. Além disso, ela apresentou maior taxa de adesão da comunidade escolar ao Programa. O piloto foi desenvolvido com adolescentes com faixa etária entre 9 a 15 anos, matriculados no Ensino Fundamental II.

Dois conceitos interligados fundamentam o Programa: a saúde mental, segundo as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS); e o de habilidades socioemocionais, definido pela Base Nacional Comum Curricular (2017), também conhecido como educação emocional.

A meta é refletir sobre a saúde, o estilo e a qualidade de vida, valores socioculturais, afetivos e relacionais de jovens e adolescentes nas oficinas de educação emocional junto com professores e alunos. Os professores que recebem a formação continuada em educação emocional são os futuros supervisores do trabalho de prevenção de violência autoprovocadas em sua comunidade escolar.

A escola é um dos ambientes primários de socialização e é importante para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. O trabalho dos professores, como “alfabetizadores emocionais”, antes exercido intuitivamente, toma forma e ganha espaço para diálogo no dia-a-dia escolar, na formação acadêmica e nas diretrizes curriculares. O objetivo é ofertar aos atores da comunidade escolar (o professor, educadores e o aluno) metodologias e ferramentas que os capacitem para atuar como facilitadores de posturas, atitudes fruto de emoções saudáveis em seu ambiente escolar.

O EscolaQPrevine é um projeto pioneiro construído em parceria pelo GEPeSP, Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC) e Comunicação e Expressão. Neste dossiê, contaremos um pouco da experiência de aplicação do piloto na escola.


Como sensibilização para a pesquisa desenvolvida pelo GEPeSP nas escolas municipais de Duque de Caxias, a primeira etapa foi a construção de rodas de conversas sobre sentimentos e emoções no ambiente escolar. Para iniciar o papo com os adolescentes, as rodas começaram com a brincadeira “mitos e verdades”, onde pudemos aproveitar o conhecimento dos alunos para instrumentalizar o protagonismo desses jovens, seus sentimentos e suas experiências de vida. Essa etapa foi inspirada no programa Passaporte da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC).

Os espaços construídos com as rodas mostraram-se um desafio. Como abordar um assunto tão delicado e de como falar em saúde emocional com adolescentes? Nosso objetivo foi desenvolver a capacidade de um jovem, ao deparar-se com uma situação difícil e estressante, fazer escolhas positivas e favoráveis à preservação da vida e ao bem estar pessoal e social. Dar subsídio para ampliar e fortalecer recursos internos, e também sensibilizar os adolescentes a participar e ouvir suas próprias impressões sobre os sentimentos. Tivemos um grande retorno dos adolescentes, que se mostravam participativos e receptivos ao assunto da saúde emocional.

Construímos discussões sobre assuntos como: confiança nos adultos e em seus próprios colegas. Essas conversas nos trouxe declarações como: “não confio, tenho que testar o candidato a amigo”. Essa falta de confiança no outro, fato que se repete constantemente nas demonstrações verbais ou não verbais das turmas, traz à tona um aspecto sensível à saúde emocional: o bullying.

Nas rodas levantamos questões como “por que pessoas fazem bullying?” “Por que outras não fazem?” Surgiram daí uma quantidade grande de respostas que não apresentavam empatia com o sentimento alheio. Em seguida, propomos que os estudantes refletissem sobre os sentimentos da pessoa atingida pelo bullying: ”como as pessoas se sentem quando os outros fazem bullying?” Nesse momento, os alunos ficaram mais quietos, demonstrando sinal de reflexão.

A agressividade demonstrou ser uma resposta corriqueira entre disputas, na ótica dos adolescentes. Ao final de uma das rodas, um aluno relatou que praticavam bullying com ele. Perguntado como agia naquela situação, respondeu que deu um soco no colega. Em um outro momento, o aluno relatou que havia sofrido crise de ansiedade e disse que “há alunos que se cortam devido ao sofrimento com o bullying”.

A automutilação surgiu em diversos momentos de nossas rodas. Esse tema foi trazido pelos adolescentes quando começavam a falar de suas emoções. Em sua maioria, compartilhar seus sentimentos é muito difícil, pois temem em ser rejeitados, julgados e entendidos de formas diferentes. Uma aluna contou que expor suas emoções pode ser entendido como “vitimização’

Chamou-nos a atenção que, em um ambiente sem cobrança e descontraído, no qual a roda de conversa se construiu, os alunos sentiram-se livres para falar sobre agressão, automutilação, bullying, confiança, insônia e uma série de outros sentimentos que à primeira vista existia dificuldade para se tratar com jovens daquela faixa etária e que se demonstraram parte importante de suas vivências.

As rodas de conversas revelaram que esses sentimentos podem ser falados e trabalhados com um grupo se deixarmos nossos preconceitos de lado. Nas rodas, procuramos falar sempre do adoecimento emocional por um lado positivo, tocando os assuntos com respeito e delicadeza.

 


O primeiro módulo foi ministrado por Marcele Juliane Frossard de Araújo, socióloga, doutoranda em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ e pesquisadora colaboradora do GEPeSP. Marcele apresentou à equipe de professores, coordenadores e funcionários os resultados da pesquisa realizada na Escola Municipal Roberto Weguelin.

A pesquisa serviu como um diagnóstico de saúde emocional das escolas. O objetivo era conhecer esse adolescente, compreender como estabelece relações com a família, amigos e profissionais de educação no ambiente escolar, descobrir como ele se relaciona com o próprio corpo e com religiões e crenças, investigar se há relação entre experiências de violência relatadas e suas emoções. Em síntese, o estudo buscou conhecer as trajetórias de vida dos alunos e os possíveis fatores associados ao sofrimento psíquico e emocional. Foram entrevistados 25 membros da escola Roberto Weguelin, dentre eles, 17 alunos, 3 professores, 4 gestores e 1 funcionário.

Durante a entrevista, alunos falaram sobre sofrimento emocional vivido, e apontaram a morte de um ente querido, a dificuldade na transição da infância para adolescência, a solidão, o bullying e as relações amorosas conflitivas como marcos principais de suas trajetórias. Os adolescentes também relataram traumas ligados à violência, como o convívio com os seus algozes e contato com cadáveres e tiroteios.

Quanto aos casos de violências autoprovocadas relatados por alunos nas rodas de conversa, a pesquisadora Marcele aponta características importantes. Foi detectada uma predominância do sexo feminino em assumir a prática, presente ou em algum outro momento da vida, da automutilação. Segundo a socióloga, muitas das vezes esses casos estão relacionados à função de “aliviar a raiva” ou como mecanismo de evitar a violência contra outras pessoas. Frases como “fiquei furiosa e me cortei” foram ditas nas entrevistas. As narrativas de autolesão também aparecem associadas a questões ligadas aos imperativos femininos sobre estética e a um sentimento de impotência. Uma característica importante desses relatos é que, segundo os alunos, se configura um comportamento autolesivo sem intencionalidade suicida.

Nos casos de ideação suicida e tentativa de suicídio, o luto pela perda de entes queridos, em especial de avós e irmãos, foi o fator associado mais citado. A depressão, o medo da violência, principalmente as agressões físicas e emocionais praticadas pelos pais ou responsáveis, e o sentimento de solidão foram os aspectos mais recorrentes nas falas dos adolescentes entrevistados.

Marcele aponta que a adolescência é uma fase de inúmeras mudanças, descobertas e contradições. É momento de formação de personalidade, de aceitação, afirmação de si e busca por originalidade e autenticidade. A adolescência também está relacionada a transformações anatômicas e surgimento do desejo sexual. O conhecimento sobre a sociabilidade do adolescente deve ser combinado com o conhecimento sobre suas características biológicas específicas – como mudanças corporais, amadurecimento cerebral e alterações hormonais – e o impacto dessas mudanças físicas com a maneira que se relacionam com o mundo.

 


O segundo módulo foi desenvolvido pela professora especialista em neurociência aplicada à educação e colaboradora do GEPeSP Fabiana Albino.  A especialista abordou o funcionamento do cérebro do adolescente, apresentando as mudanças de cognição, comportamento e percepção ocorridos nessa fase da vida.

A professora Fabiana Albino explicou que a adolescência marca o momento de amadurecimento cerebral, que apresenta características de instabilidade. Essa instabilidade é fruto de adaptações neuroquímicas, que ocorrem de forma mais dinâmica nessa fase da vida. Isso influencia a cognição e a forma de lidar com a aprendizagem e a pressão oriunda desse processo. Estudos apontam a dinâmica neural como responsável pela variação da estabilidade emocional e a forma de lidar com os aspectos de desenvolvimento durante a adolescência.

A neurociência aponta que, na adolescência, o indivíduo precisa de um ambiente acolhedor e incentivador de competências emocionais positivas, um ambiente onde se sinta seguro e possa refletir sobre comportamentos mediante valores e autocrítica. A aprendizagem efetiva ocorre a partir de um bom estímulo, principalmente na fase da adolescência. O comportamento mental do adolescente se caracteriza pela impulsividade, imediatismo nas respostas, busca pelo novo e pela emoção.

A partir desse quadro, o processo de ensino deve privilegiar ambientes desafiadores para a aprendizagem e não os métodos de reprodução de conteúdo pronto. Segundo a professora Fabiana Albino, um método que estimule a criatividade e produção de conhecimento ajuda o cérebro confuso e em adaptação dos adolescentes, pois leva a vivência de desafios e equilíbrio nas decisões, respostas e frustrações.

A última parte do cérebro a amadurecer é o córtex pré-frontal, que comanda as capacidades mentais de planejamento, concentração, inibição de impulso, reflexão de valores e empatia. Essa região amadurece na idade adulta, encontrando-se em processo de adaptação na adolescência. Isso pode explicar a oscilação de análise de situações que envolvam valores humanos e de decisões nessa fase.

Outra mudança apontada como crucial nessa adaptação da adolescência é no sistema de recompensa da mente. Esse sistema é composto por estruturas no cérebro responsáveis pelo prazer a partir de comportamentos que se mostram interessantes. Segundo a professora Fabiana, na transição entre infância e adolescência ocorre a regulação da dopamina. A regulação e o amadurecimento desse funcionamento não são lineares, o que causa inconstâncias. Isso ocorre porque na adolescência os receptores para a dopamina diminuem.

Como essa fase da vida é momento de amadurecimento do comportamento, da autorreflexão, da autorregulação e da consciência crítica, ocorre muitas contradições entre as decisões. Isso é explicado por conta do aspecto emocional ainda imaturo. Por isso buscam experiências mais intensas em busca de sensação de prazer. O desequilíbrio de dopamina está relacionado aos comportamentos de excessos, irritabilidade, frustração, imediatismo, impulsividade e comportamento de risco. Os comportamentos de risco podem levar a acidentes e autodestruição na adolescência. O meio social é um dos motivos que levam, por influência, aos comportamentos de risco. Jovens são movidos a impressionar seus amigos em busca de aprovação ou inserção em grupos.

Associado a isso está a produção e amadurecimento do hormônio sexual. O sistema de recompensa se torna sensível aos hormônios que promovem prazer sexual. O hormônio sexual em amadurecimento pode causar grande irritabilidade por contas das frustrações nas relações, o que pode gerar comportamentos depressivos.

A adolescência é a uma fase propícia para o aparecimento de diversos tipos de doenças psiquiátricas. Uma das explicações para essa vulnerabilidade é a maturação do cérebro e da mente, ou seja, a maturação do sistema emocional.

A professora Fabiana Albino nos mostrou a importância de compreender o funcionamento e as mudanças ocorridas no cérebro dos adolescentes. Essa é etapa essencial no programa EscolaQPrevine. Conhecer o adolescente, trazendo à luz o que está por trás das mudanças e inquietações dessa fase da vida, é fundamental para se pensar em ações de prevenção e acolhimento em ambiente escolar.


O Programa EscolaQPrevine também está fundamentado em posturas e práticas da metodologia educacional ASEC para promoção da saúde emocional. Para abordar as questões teóricas e práticas da educação emocional aplicada ao ambiente escolar, a professora Paola Centieiro, integrante da ASEC – Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), grupo parceiro do GEPeSP, foi convidada para ministrar a aula.

Os módulos de educação emocional são integrados. Eles entram de forma objetiva na sensibilização e na Formação Básica em educação para a saúde emocional, centrada em conceitos e práticas do desenvolvimento de habilidades emocionais colocadas à vivência do profissional de educação. O último módulo de formação continuada em Educação Emocional é dedicado à reflexão sobre a experiência de implementação da caixa de ferramentas em sala de aula. Esse tema será retomado e detalhado no sétimo módulo.

O terceiro módulo introduz as ferramentas do Programa que visam promover saúde emocional de professores, funcionários e alunos. Partimos do suposto que para formar os futuros multiplicadores de prevenção de violências autoprovocadas em ambiente escolar, os participantes do programa precisavam aprender a lidar com as suas próprias dificuldades, adquirindo habilidades socioemocionais. Acolher uma pessoa em sofrimento exige preparo emocional e técnico.

Foi pensando em prevenir o comportamento suicida e promover a saúde emocional que o Programa EscolaQPrevine oferece a seu público alvo atividades da “Caixa de Ferramentas”, uma metodologia exclusiva da ASEC, fundamentada no conceito de COPE (Lidar com dificuldades). São ferramentas que colaboram com o desenvolvimento emocional dos alunos. O estudante é convidado a ampliar o repertório de estratégias para lidar com sentimentos. O “Coping” é o que fazemos para melhorar uma situação ruim ou para nos sentirmos melhor a respeito da situação”.

Através dessa aplicação, os educadores tiveram a oportunidade de refletir, conceituar e melhor compreender as etapas de identificação e nomeação de sentimentos, o conceito de COPE e o de Saúde. Os profissionais de educação são convidados a refletir sobre sua postura de educador para facilitar o desenvolvimento emocional de seus alunos.


Nesse módulo, professores e funcionário receberam formação em Saúde Emocional dividida em três encontros. O objetivo é de capacitá-los para o desenvolvimento rodas de conversas com os estudantes, prepara-los para abordar temas relacionados às emoções e sentimentos, fornecendo-lhes o embasamento conceitual e prático das atividades, além de deixá-los confortáveis para o papel de facilitadores do desenvolvimento emocional de seus alunos que desempenharão.

Também ministrado pela professora Paola Centieiro, integrante da Associação Pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC), o módulo ofereceu aos participantes a oportunidade de vivenciar algumas das ferramentas que seriam trabalhadas com os alunos. A implementação da caixa de ferramentas, no módulo três, teve como objetivo central ensinar professores e funcionários a aumentar o seu repertório de boas soluções na resolução de dificuldades e ao lidar com sentimentos desagradáveis.

No quarto módulo, através das rodas de conversa, os professores e funcionários da escola Roberto Weguelin conheceram o conceito de “leque de opções” e a reflexão sobre a importância de ter um grande conjunto de boas e eficazes soluções. Os participantes também foram preparados para lidar com as situações difíceis, que pudessem surgir em contato com os seus alunos, considerando a preservação da privacidade e segurança dos alunos, através de orientações diretivas de conduta apropriada às situações delicadas.

Busca-se aqui promover a autonomia, o protagonismo e a flexibilidade dos participantes. A promoção do protagonismo e autonomia é importante no desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais, de modo que os alunos se sintam capazes e “empoderados” não somente para tomar decisões assertivas, mas também em auxiliar os outros a fazê-las. O vídeo mostra a professora Paola explicando aos professores e funcionários o conceito de leque de opções na resolução de problemas.


“Meu aluno anda quieto e me parece triste. Como conversar com ele sem que isso gere mais dor ou desconforto?”

Para descobrir como fazer a abordagem de forma correta, os professores e funcionários participaram da capacitação em comunicação assertiva e não-violenta ministrada pela fonoaudióloga e diretora da Comunicação Expressão Cláudia Mourão.

A comunicação assertiva é a habilidade de se expressar e afirmar sem agressividade. É uma forma de apresentar seu ponto de vista e mostrar o que sente de forma respeitosa – consigo mesmo e com os outros. Quando isso não ocorre pode haver conflitos, mal entendidos e prejuízos. E isso acontece não só por conta do que dizemos, mas devido os sentimentos, respostas e reações que cada pessoa pode ter diante dessas situações.

Com o objetivo de disseminar esse conhecimento, a facilitadora Cláudia realizou em sala de aula dinâmicas focadas no fortalecimento das habilidades de comunicação interpessoal dos participantes, estimulando-os a escolher palavras, posturas e utilizar o tom de voz correto, além de tornar consciente a maneira adequada de se comunicar. Os professores e funcionários tiveram a oportunidade de refletir a sua prática a partir de simulações de situações de acordo com a realidade de sala de aula.

O módulo de comunicação assertiva e não violenta não somente sensibilizou e envolveu, mas também fez que professores e funcionários se comprometessem com a experiência das atitudes comunicativas positivas. Os exercícios desenvolvidos em sala de aula revelaram possíveis caminhos para a criação de ambientes cada vez mais propícios a esse tipo de ação, servindo de exemplo para os alunos replicarem em suas interações cotidianas. O vídeo mostra um pouquinho da capacitação que a fonoaudióloga Cláudia Mourão deu aos participantes.


“Como me comunicar de forma correta com os alunos, mesmo que precise ser firme, sem que isso possa gerar dor e sofrimento?”

Dando seguimento a etapa anterior, no sexto módulo, os professores e funcionários aprenderam como se comunicar de forma assertiva. O módulo também foi ministrado pela fonoaudióloga e diretora da Comunicação Expressão Cláudia Mourão, que apresentou os conceitos por trás da comunicação assertiva, e aplicou a ferramenta “Tabuleiro da Assertividade”.

O Tabuleiro é um conjunto de 33 afirmações, em formato de tabela. Através da concordância ou não a cada enunciado, é possível medir o tipo de comportamento comunicativo de cada pessoa. Existem 3 comportamentos classificados pelo Tabuleiro:

1) o passivo – o indivíduo prioriza o outro, tem dificuldade de expressar sentimentos, diz sim quando gostaria de dizer não e, quando diz não, se sente culpado. É um tipo de comportamento que pode apresentar angustia, baixo estima e conflitos emocionais para a pessoa;

2) agressivo – o indivíduo se põe à frente do outro, expressa o que pensa sem se preocupar com os impactos, é sincero e direto, porém inadequado. É um comportamento que apresenta tensão permanente, atitudes de ataque e defesa;

3) o assertivo – onde o indivíduo e o outro são considerados importantes, consegue expressar bem ideias e sentimentos, diz “sim” e “não” quando acha oportuno, procura ser sincero de forma adequada na comunicação. O indivíduo assume responsabilidade pelo seu comportamento.

Como já abordamos, a comunicação assertiva é a habilidade de se expressar e afirmar sem agressividade. É uma forma de apresentar seu ponto de vista e mostrar o que sente de forma respeitosa – consigo mesmo e com os outros.

Para isso, é preciso apresentar uma postura segura, uma expressão corporal que acompanhe suas palavras, além de ser um exercício constante da escuta, de tratar com respeito as pessoas, sem ironia e brincadeiras, e que o professor aceita acordos e soluções, sempre deixando claro suas intenções.

Algumas atitudes são importantes para a comunicação assertiva. Pontuar a falar com expressões de empatia: “imagino que isso deve ter sido muito difícil”. Usar expressões físicas empáticas, como acenar com a cabeça mostrando concordância. Além de utilizar perguntas abertas com os alunos. Fazendo o bom uso da comunicação, podemos construir uma escola mais humana, que escute os estudantes, faça o acolhimento dos que sofrem e auxilie na prevenção.


No módulo sete foi apresentado a ferramenta “Mapa da Empatia” e o “Plano de Ações”, para que os educadores pudessem utilizá-los com os seus alunos. Este encontro foi ministrado pela professora Cláudia Mourão, diretora da Comunicação e Expressão.

O Mapa de Empatia é uma ferramenta que foi desenvolvida para o mundo dos negócios. Permite compreender cada segmento de clientes de uma forma visual, estabelecendo hipóteses claras a respeito das necessidades, comportamentos e outros atributos das pessoas e/ou organizações atendidas por um determinado modelo de negócio. Adaptado, o Mapa de Empatia é uma ferramenta que nos permite compreender cada aluno de uma forma visual, estabelecendo hipóteses claras a respeito das necessidades, comportamentos e outros atributos, para melhor compreendê-los e auxiliá-los.

O Mapa é dividido em seis partes. As quatro primeiras são intituladas: “o que pensa e sente, o que escuta, o que fala e faz e, o que vê”. Esses são aspectos que giram em torno do comportamento do indivíduo e, consequentemente, podem dar indícios de como o professor está se sentindo, de que forma lida com suas emoções, como reage ao entorno e com as situações da vida, em geral. Contudo, além delas existem duas áreas que levam ao nível mais profundo. São elas: quais são as suas dores e, quais são as suas necessidades e ganhos.

Tendo por base a ferramenta Mapa da Empatia, na sequência, os professores puderam conhecer e elaborar seus Plano de Ações, buscando transformar aspectos comportamentais que tenha analisado com necessidade de mudança – aqueles comportamentos e pensamentos que os desanimavam, baixavam sua motivação, ou o deixavam sem perspectivas.

A dinâmica foi realizada da seguinte maneira: os professores tiverem um tempo para construir o seu próprio Plano de Ações, baseado nos dados da sua realidade enquanto educador. Além disso, foi pedido que dessem exemplos de atividades para serem feitas com os estudantes. Logo em seguida as ações individuais foram compartilhadas com grupo, que pude discutir sobre o conteúdo apresentado, fazer sugestões e incentivar os colegas para que as medidas realmente fossem postas em prática.


O oitavo módulo é dedicado à formação de agentes de prevenção de violências autoprovocadas. Essa etapa foi ministrada pela cientista política e coordenadora do GEPeSP Dayse Miranda e pela fonoaudióloga e diretora da Comunicação Expressão Cláudia Mourão. Elas apresentaram conteúdos práticos e teóricos específicos à prevenção do comportamento suicida na adolescência, oferecendo subsídios para que formulassem a própria ferramenta de prevenção a escola.

Nesse trabalho, os alunos são protagonistas. Eles aprendem a identificar, acolher e abordar colegas que apresentem sofrimento emocional. São formados como agentes multiplicadores de prevenção e, eles mesmos, com apoio dos professores, constroem a ferramenta de prevenção da escola. Os docentes recebem treinamento de supervisores das ações de desenvolvidas pelos adolescentes, permitindo a instrução de novos estudantes como multiplicadores de prevenção quando iniciam novas turmas com a mudança do ano letivo.

Afinal, em quais situações precisamos estar alertas para fazer a abordagem? Quando o estudante se afasta, aparentando ou relatando sentimentos de solidão, abandono, impotência ou desesperança. Além disso, quando há perdas de pessoas queridas, términos de relacionamentos amorosos, mudanças hormonais e bullying. Esses fatores não são sinônimos de que o estudante apresente um comportamento suicida, mas é importante que se faça a abordagem e o acolhimento pois eles podem ser pistas.

Como podemos fazer a prevenção na escola? Com o programa, estudantes, funcionários e professores conheceram o diagnóstico desenvolvido a partir da pesquisa do GEPeSP sobre a saúde emocional da escola, onde 39 casos de tentativa de suicídio foram relatados. A partir disso e de toda formação oferecida pelo programa, professores, funcionários e alunos compreenderam a necessidade de desenvolver uma rede de apoio na escola, e puderam apresentar propostas, debater e construir a própria ferramenta de prevenção à violência autoprovocada da escola.


Após explicar todo o percurso da implementação do programa piloto EscolaQPrevine na Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, chegamos à etapa final. Aqui apresentamos a avaliação dos professores e os seus depoimentos sobre a aplicação da “Caixa de Ferramentas” e do “Mapa da Empatia”, aplicado em módulos anteriores.

Foi o momento de pôr todo o conhecimento adquirido em prática. A partir dos combinados “Ninguém precisa falar se não tiver vontade”, “O que for dito aqui fica aqui”, “Cada um fala de si mesmo” e “Enquanto um fala, os demais prestam atenção”, os professores puderam estabelecer um ambiente seguro de compartilhamento e cuidado com os alunos, para assim utilizar as ferramentas aprendidas durante toda a formação e fazer com que todos pudessem falar dos seus sentimentos e das suas angústias. Depois da aplicação com as turmas, os professores foram orientados a escrever um relatório contando como tinha sido a experiência, quais foram as principais dificuldades e, principalmente, como foi a recepção dos alunos a respeito da abordagem.

A avaliação final superou as expectativas. Mesmo com alguns casos de barreira inicial, foi relatado que mais de 50% dos alunos de cada turma (em média 30 alunos por turma) toparam participar da atividade e conseguiram, coletivamente, trazer seus dilemas. Seguem abaixo alguns depoimentos compartilhados pelos professores sobre a aplicação das ferramentas.

“A experiência de colocar em prática uma das ferramentas apresentadas durante os encontros de formação do Programa EscolaQPrevine foi desafiadora e empolgante. Os temas abordados têm auxiliado consideravelmente minha prática docente. Tenho refletido e repensado aspectos significativos da relação professor/aluno. Também, tenho avaliado a qualidade da comunicação que estabeleço com os alunos. “ (Professor de Língua Portuguesa Cláudio J. Bernardo – desenvolveu a ferramenta com uma turma do 7º ano).

“De maneira geral, a implementação da Caixa de Ferramentas na turma foi um desafio. Por ser uma turma que apresenta vários alunos com dificuldades diversas e com problemas familiares comprovados, falar sobre emoções e sentimentos trouxe uma série de atitudes de autodefesa, tais como não participar (ora se negando a olhar o que estava acontecendo, ora olhando e se recusando a opinar), fazer piadas sobre o tema, tentar impedir a opinião de outros colegas, etc. Por outro lado, a participação de alguns se mostrou efetiva, estimulando aos demais a opinarem sobre o tema. Passei a observá-los de maneira mais atenta e benevolente após a aplicação da ferramenta pois as opiniões apresentadas demonstraram grande necessidade de aceitação e de atenção emocional. ” (Professora de Ciências Adélia Ferran – desenvolveu a ferramenta com uma turma do 7º ano).

“A implementação da ferramenta de desenvolvimento de habilidades socioemocionais “Mapa da empatia” foi bastante surpreendente e desestabilizadora. Surpreendente porque demonstrou uma eficácia que eu inicialmente não esperava quanto à sua capacidade de mobilização dos alunos, fazendo-os revelar seus conflitos, suas contradições, suas limitações, suas potencialidades, suas emoções, enfim – como se fizessem, pela primeira vez, uma viagem orientada para dentro de si mesmos. E desestabilizadora porque impactou consideravelmente as minhas “certezas” sobre a diversidade comportamental dos adolescentes e como podemos, mesmo nós, orientadores educacionais, interpretar equivocadamente determinadas ações e reações dos nossos alunos e, a partir dessa interpretação errônea, fazer intervenções que podem piorar a situação do discente. Em uma das conversas, por exemplo, a aluna revelou muito baixa autoestima e insatisfação com a sua aparência, relatando sentir-se melhor apenas quando se maquia. Seu pai, porém, a proíbe de usar maquiagem e, na última vez que a surpreendeu maquiada, a agrediu e lavou o seu rosto com sabão em pó. A reflexão que fiz imediatamente foi a seguinte: se esta aluna, ao chegar à escola, se dirigisse ao banheiro para se maquiar, em vez de ir direto para a sala de aula, como reagiríamos? Provavelmente consideraríamos que ela estaria deixando para se maquiar na escola para poder retardar o ingresso na aula; e a repreenderíamos, aumentando o seu sofrimento”, contou Leandro Jesus, Orientador Educacional.


O encerramento da formação foi marcado pela apresentação do Plano de Ação construído por alunos, professores e funcionários que participaram da capacitação durante os 3 meses de atividades. O Plano apresentado tinha como diretrizes centrais os eixos: intervenção, manutenção, perpetuação e prevenção.

Agora, ao longo de 3 meses, o grupo colocará em práticas essas ações, com monitoramento da equipe do programa EscolaQPrevine, que ajudará solucionando dúvidas e auxiliando na execução dos exercícios durante todo o processo. Ao fim do estágio, no mês de outubro, o grupo dividirá um pouco da experiência de aplicação do Plano no dia a dia da escola. Os participantes que finalizaram a capacitação receberão um certificado de Embaixadores da Prevenção do Suicídio no Ambiente Escolar.


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