Uncategorized

GEPeSP oferece curso de negociação com pessoas em tentativa de suicídio na UERJ

Por Kathlen Barbosa,
jornalista e pesquisadora do GEPeSP.


O GEPeSP esteve presente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no mês de outubro (7 e 22), para contribuir com o ‘Curso de Negociação e Abordagem Técnica com Suicidas’, oferecido a um grupo de 100 vigilantes da universidade. As aulas foram ministradas pela socióloga, pesquisadora e coordenadora do GEPeSP Dayse Miranda e pela psicóloga e colaboradora do GEPeSP Alexandra Vicente, também capitão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). O curso é organizado pela Superintendência de Recursos Humanos da UERJ (SRH) e faz parte do Programa de Capacitação Especial de Agentes de Segurança (PCEAS), que também oferece anualmente os cursos de ‘Primeiros Socorros’ e ‘Combate a incêndio’.

O programa é estruturado em cinco módulos: “O comportamento suicida: conceitos, teorias e estatísticas”; “Negociação em contexto de risco de suicídio”; “Abordagem técnica em tentativas de suicídio”; “Negociação com suicida: o que fazer? Como fazer?”; e “Negociação: a prática”. Os três primeiros módulos, ministrados pela professora Dayse, compõem a parte I do curso, oferecida online (EAD), e os dois últimos compõem a parte II, ministrada pela professora Alexandra, presencial. A primeira parte aborda questões teóricas e conceituais sobre o suicídio e o histórico do comportamento suicida no Brasil e no mundo, além de discutir os mitos em torno da questão e traçar técnicas de abordagem essenciais a um negociador.

Nas aulas presenciais, Alexandra discute com os alunos, desconstrói preconceitos e desmistifica tabus sobre a depressão, transtorno de ansiedade, e outras doenças. O objetivo é auxiliar os agentes de segurança a traçarem um perfil psicológico da pessoa que esteja em tentativa de suicídio, o tentante, e a lidarem com a negociação da forma mais calma, empática e efetiva possível, preservando a vida do tentante até a chegada de socorro especializado do Corpo de Bombeiros Militar – e da Polícia Militar, em caso de porte de arma de fogo -. Além da preparação teórica, o último módulo oferece dinâmicas que estimulam o debate e a reflexão sobre o trabalho da negociação. E, ao final, a psicóloga desenvolve duas simulações práticas de uma situação de tentativa de suicídio, em que os alunos têm que atuar como negociadores.

Andrea Travassos, uma das alunas, é agente de segurança há 18 anos e já precisou realizar negociação com tentantes. “Foi muito tenso. Nós tivemos uma informação de que a pessoa estava no local, numa sacada. Quando chegamos, me apresentei, perguntei o nome dela e pedi para que continuasse olhando para mim o tempo todo… E começamos a conversar”, conta Andrea. “Nossa equipe de segurança não se aproximou, como ela me pediu, mas estava lá pronta para atendê-la”, completa. Segundo a agente, a negociação demorou cerca de 30 minutos, aplicando as técnicas que já havia aprendido, até que a jovem aceitou ajuda para sair do local. “Com certeza esses cursos e aulas que nós estamos fazendo, sempre com professores muito bons e que têm experiência no que falam, me ajudaram e melhoraram muito a minha forma de dialogar nessas ações. Se eu tivesse que dar uma nota, eu daria nota 20. Para nós, esses cursos são fundamentais”, destaca Andrea.

Para Alexandra, o curso contribui ainda para a saúde mental dos vigilantes, porque oferece ferramentas que os possibilitam reconhecer sua capacidade de intervenção técnica e seu limite emocional, além de capacitá-los para lidar com o sofrimento do outro. “O vigilante não tem a responsabilidade de ‘evitar’ o ato suicida. Ele é preparado para ouvir, acolher e assim conduzir o outro a escolha de ‘mais uma hora, mais um dia, mais uma semana’”, explica a especialista. Ela destaca ainda que o curso tem se mostrado “um excelente espaço de troca e autoconhecimento, o que demonstra a importância de se investir em novos momentos de fala e troca para esses profissionais”.