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IPPES inicia grupo de estudos

Participantes construirão as próprias ações de prevenção, do projeto à aplicação prática; Instituto inova e propõe fazer de sua capacitação em suicidologia e políticas públicas uma incubadora de ações de prevenção do suicídio no Brasil.

 

 

Por Caio Brasil,
Jornalista e pesquisador do IPPES.


O IPPES deu início ao seu grupo de estudos com a capacitação Suicidologia, Prevenção, Posvenção e Políticas Públicas. Com foco na construção de ações estratégicas e proposição de políticas públicas, a ideia é formar novos pesquisadores, colaboradores, multiplicadores e voluntários interessados em atuar na prevenção e posvenção do suicídio. A capacitação piloto é gratuita e está dividida em 10 encontros mensais, com 20 módulos e 2 oficinas no total.

No final da capacitação, cada integrante apresentará um projeto de prevenção, desenvolvido por ele com orientação da equipe do IPPES, que será aplicado e monitorado ao longo de três meses de estágio. Os três melhores projetos serão selecionados e adotados como ações do Instituto, que buscará formas de financiamento para implementação e continuidade. O IPPES será também uma incubadora de ações de prevenção às violências autoprovocadas. A intenção é criar e disseminar ferramentas e estratégias de prevenção do suicídio no Brasil.

Com previsão de encerramento em dezembro, a formação tem a colaboração voluntária de especialistas convidados de diferentes áreas do conhecimento, como antropologia das emoções, sociologia das organizações, sociologia das religiões, sociologia da educação, saúde pública, saúde do trabalhador, juventude e violência, segurança pública, além de metodologia de pesquisa e suicidologia. Em novembro será divulgada em nosso site e redes sociais a abertura de vagas para o próximo ano letivo (2021).

O grupo de estudos é a porta de entrada para o IPPES, que após a formação, de acordo com as demandas e projetos, o participante poderá ser convidado a fazer parte da equipe. A turma atual foi selecionada no final de 2019. O Instituto recebeu mais de 120 inscrições de pessoas de todas as regiões do Brasil. Entre os 40 selecionados, fazem parte agentes de segurança pública, cientistas sociais, jornalistas, assistentes sociais, psicólogos, entre outros profissionais das mais diversas áreas.

 

O primeiro encontro

Os participantes se reuniram pela primeira vez no dia 10 de março, na sede do IPPES, na Tijuca. Em clima de animação, os trabalhos iniciaram pela manhã com a oficina “Viva e ajude a viver”, ministrada pela psicoterapeuta Ana Maria D’Alessandro de Camargo. A psicóloga clínica e escolar Daniele Alves Ferreira, uma das participantes da capacitação, avalia que “foi tudo maravilhoso. Cheguei com muitas expectativas e saí com mais ainda. Me senti como um potinho vasinho, querendo se encher de conhecimento com a troca. Eu acredito que a gente cresça com a troca”.

Após a oficina, o primeiro módulo foi dedicado a apresentação do Instituto. Essa etapa foi conduzida pelas sócias fundadoras do IPPES: a cientista política e diretora e presidente Dayse Miranda e a advogada e diretora jurídica Kátia Sodré. Confira aqui o folder que explica as áreas de atuação e fique por dentro das linhas de pesquisa, ação e ensino do IPPES.

O segundo módulo abordou o tema “saúde mental na infância”, e foi aplicado pelo psiquiatra Orli Carvalho, doutorando do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Fiocruz) e médico do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Em entrevista à assessoria de comunicação do IPPES, Orli avalia que “é importante, antes de tudo, reconhecer o protagonismo das políticas públicas já existentes que visam a proteção de crianças e adolescentes no país. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, fornece diversos subsídios para a compreensão e enfrentamento da violência contra esse grupo etário. Assim, é inadmissível para a Saúde Pública a identificação de um discurso político e público contrário ao ECA”.

Segundo o pesquisador, para reduzir a crescente taxa de suicídio é preciso “fortalecer as estratégias legais já existentes, capacitar profissionais da atenção básica e da educação, defender instâncias como os Conselhos Tutelares, ampliar a Rede de Saúde Mental (CAPSIs, Ambulatórios e Leitos Hospitalares Psiquiátricos em Hospitais Gerais). Essas não são Políticas e estratégias novas, mas mecanismos críticos para a prevenção do comportamento suicida em crianças e adolescentes”. O médico comenta que vem crescendo o incentivo para abordar o tema no país, mas que esbarra na necessidade de maior engajamento por parte do governo. Além disso, ele reforça que “o acesso aos meios é uma das medidas mais importantes na prevenção ao suicídio. É de extrema irresponsabilidade a flexibilização ou ainda o estímulo ao armamento civil no país”.

Para a melhor compreensão do fenômeno e viabilizar estratégias de prevenção, Orli argumenta que, mais interessante que pensar em “crianças e adolescentes”, é necessário analisar um grupo mais abrangente como “juventude”, que comporta adolescentes e adultos de 15 a 29 anos. “O que não significa, claro, pensar que não há riscos na infância e na adolescência inicial”, explica o médico, que aponta que a escola deve ser um espaço de promoção de saúde mental e prevenção. “É importante que educadores e profissionais da educação tenham como responsabilidade a prevenção da violência, em todas as suas naturezas e tipologias. A prevenção da violência pela escola é um tópico essencial para se avançar na prevenção do comportamento suicida infantojuvenil”.

Na perspectiva do pesquisador, “considerando o comportamento como uma manifestação de violência e também de sofrimento psíquico, pode-se compreender a importância da escola na identificação e manejo de indivíduos que carecem uma abordagem psicoterapêutica, a longitudinalidade das ações escolares na vida dos alunos confere excelente oportunidade para reconhecer as dificuldades na adaptação e funcionamento de crianças e adolescentes”.

O professor observa com entusiasmo a criação de um instituto de pesquisa em prevenção do suicídio, em uma conjuntura de crescimento das taxas no país: “o IPPES tem se estruturado de forma muito pertinente no cenário nacional, oferecendo uma capacitação num modelo consistente, congregando módulos de aulas teóricas, com um objeto prático em vista: o desenvolvimento de projetos e políticas públicas por diferentes profissionais do país. O caráter multidisciplinar é de extrema relevância quando se tem um objeto multifacetado e complexo como o suicídio”, avalia Orli.

 

A expectativa dos participantes

A assistente social Fernanda Luma, coordenadora multidisciplinar do Hospital e Maternidade Nossa Senhora da Conceição, em Fortaleza/CE, viajará todos os meses ao Rio de Janeiro para participar do grupo de estudos. Desde meados dos anos 2000, ela desenvolve um projeto em saúde mental, que em 2016 se voltou ao tema do suicídio. Atualmente, o Projeto @sobresuicídio circula pelo interior do Nordeste promovendo capacitações associadas à prevenção.

Fernanda revela que se aproximou da temática quando sua mãe tentou suicídio. “Ela se colocava como alguém que jamais pensaria sobre isso. Uma pessoa com espiritualidade forte, com uma família que apoia. Aí eu pensei: se apesar disso tudo ela tentou, qualquer pessoa está sujeita. É preciso abrir o leque e tentar descobrir formas de ajudar e prevenir”, conta Fernanda.

A assistente social ainda está elaborando o projeto que apresentará no final do ano, mas almeja algo voltado à comunidade no entorno do hospital que trabalha, no Conjunto Ceará, um dos bairros mais populosos de Fortaleza e que apresenta indicies elevados de violência.  Feliz com o primeiro dia, ela avalia como muito positivo o encontro. “Saio daqui hoje bem grata, empolgada e desafiada. Vim com expectativa contemplada de trocar figurinha com pessoas diferentes”, acrescenta Fernanda.

A psicóloga Vivian Brito, que também participa do grupo de estudos, teve contato com o tema da prevenção quando foi voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV). Ela atua principalmente com adolescentes em sofrimento e com famílias enlutadas pelo suicídio. A princípio, a proposta de ação em prevenção planejada pela psicóloga será focada nas comunidades carentes do Rio. “Isso que estamos fazendo não chega nessas pessoas, quero fazer algo voltado para esse público”, comenta Vivian.

Ela acredita que sua participação no grupo de estudos trará crescimento. “No primeiro dia eu fiquei muito curiosa. Tenho uma expectativa muito grande do quanto a capacitação vai acrescentar na minha vida profissional, na minha atuação e como eu posso ser uma transformadora de espaços habito e do quanto vou conseguir interferir em situações limites”.

O psicólogo clínico André Emílio, outro integrante do grupo, conta que o interesse pela temática da prevenção surgiu quando se deu conta do fenômeno do suicídio entre agentes de segurança pública. Foi a partir disso que teve o primeiro contato com o Grupo de Estudos e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP), grupo que deu origem ao IPPES. Desde então ele passou a ministrar palestras sobre depressão e suicídio em escolas.

O objetivo do psicólogo é acumular conhecimento e instrumentalizá-lo em seu trabalho de prevenção. “A minha expectativa é a melhor possível. Quero me tornar um multiplicador e ajudar a instituição. A princípio como um aluno daqui, aprendendo, e depois transformando em ações e implementando da melhor forma possível”, explica André.