Uncategorized

Rio ganha seu primeiro instituto de pesquisa em prevenção do suicídio

IPPES também fará capacitação de profissionais em saúde mental; número de casos de suicídio no Brasil cresceu 41% de 2007 a 2017..

 

 


Por Caio Brasil e Kathlen Barbosa,
Jornalistas e pesquisadores do IPPES.


 

Em cenário de aumento no número de casos de suicídio no país, Rio de Janeiro ganha seu primeiro centro voltado exclusivamente à pesquisa e ensino em prevenção dessa temática. O Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), entidade independente e sem fins lucrativos, foi inaugurado nesta terça (03/03). Entre as dezenas de pessoas que prestigiaram a cerimônia, estiveram presentes alguns dos principais pesquisadores e autoridades que abordam o tema no país.

O IPPES surge de um encontro multidisciplinar de pesquisadores empenhados em capacitar profissionais e estimular ações e políticas públicas de prevenção às violências autoprovocadas (suicídio, tentativa, ideação e autolesão sem intencionalidade suicida). A presidência do Instituto será ocupada pela professora e cientista política Dayse Miranda, que há mais de 18 anos pesquisa o tema.

Ela avalia que o maior desafio é colocar o assunto na agenda pública e enfrentar os tabus que o envolvem, além da conjuntura de cortes nos programas de fomento à pesquisa. “O Instituto é uma grande conquista para o Rio, pois abre a possibilidade de trabalhar a prevenção do suicídio em diferentes perspectivas. Por muito tempo o suicídio foi objeto exclusivo da área de saúde mental, mas agora temos uma instituição que o pensa também como um problema social”, avalia a pesquisadora.

 

 

A pesquisadora e socióloga Maria Cecília Minayo (Claves/Fiocruz), uma das maiores referências sobre suicídio no Brasil, foi a convidada para ministrar a aula inaugural do IPPES. Em entrevista, a professora fala com entusiasmo sobre o novo instituto: “vejo como (algo) muito importante, particularmente, pelos objetivos a que ele se propõe: o estudo, a pesquisa e a ação estratégica. O Instituto inova e traz contribuições muito importantes, seja em conhecer mais sobre o fenômeno do suicídio, seja na questão da valorização da vida”.

 

 

O Coronel Allan Fernando Quint, Coordenador-Geral de Políticas para Profissionais de Segurança Pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP/Ministério da Justiça), esteve presente na cerimônia de inauguração do Instituto. Segundo ele, “é interessante e louvável a iniciativa. A Secretaria Nacional de Segurança Pública entende que isso vai de encontro ao que pensamos no sentido de proteção e de valorização do nosso profissional. Estamos prontos para apoiar e ajudar a promover essa iniciativa”.

O Coronel explica que a secretaria está atenta ao crescente número de suicídios entre profissionais da área e revela a necessidade de construir estatísticas. “A principal dificuldade é quantificar, saber quantos suicídios ocorrem e de que forma ocorrem. Essas informações são essenciais para elaborar políticas públicas com intervenções, visando a prevenção do suicídio na segurança pública”, destacou em entrevista à assessoria do IPPES.

 

 

Em um dos momentos mais emocionantes da noite, a advogada Katia Sodré, mãe sobrevivente enlutada e sócia fundadora do IPPES, fez uma homenagem às vítimas e aos sobreviventes do suicídio. Em fala emocionada, Kátia conta que a dor e a experiência dos sobreviventes enlutados podem contribuir. “Nós não falamos de morte, queremos falar de vida, de vida boa”, diz a advogada. Ela estará à frente do grupo de apoio aos enlutados por suicídio, que reunirá sobreviventes em um espaço confortável e seguro para que possam dividir suas vivências. “Queremos ajudar as pessoas a superarem o período do enlutamento e a ressignificarem suas vidas. Será um grupo de apoio contínuo e queremos levar essas informações para toda a sociedade”, explica Kátia.

 

 

A também sócia fundadora Verônica Szuster destaca que o Instituto se propõe a mostrar que “a morte não é o melhor caminho para o sofrimento humano. Queremos acolher o sofrimento e atuar na promoção da vida”. Para ela, “dentre todas as características do suicídio, a que mais me salta aos olhos é que ele pode ser prevenido. E nós temos que estar dispostos a atuar em função da prevenção”.

 

 

A líder da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC) e parceira do IPPES, Juliana Fleury, também participou da cerimônia. Para ela, “é crucial num momento como esse um instituto para fomentar esses três pilares: pesquisa, formação e ação. Com isso podemos pensar em possibilidades de reverter o quadro de adoecimento em todos os níveis etários da população brasileira”.

A cerimônia também marcou a entrega da placa “Escola Amiga da Prevenção”. A primeira foi dada à professora Neia dos Santos Albino, representante da Colégio Estadual Padre Anchieta, de Duque de Caxias. Foi a participação de Dayse Miranda em uma roda de conversa sobre o setembro amarelo, a convite da professora, que fez surgir a ideia de pesquisar e construir um programa de prevenção nas escolas. A segunda placa foi entregue ao professor e diretor João da Costa da Escola Municipal Jayme Fichman. A Escola de Duque de Caxias será a próxima a receber o programa de formação de multiplicadores da prevenção às violências autoprovocadas EscolaQPrevine.

 


Histórico na pesquisa e ação de prevenção do suicídio

O IPPES é um desdobramento do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP), da UERJ, que se notabilizou pela pesquisa sobre suicídio entre agentes de segurança pública. O livro “Por Que Policiais Se Matam“, publicado pelo GEPeSP em 2016, serviu de referência para o Projeto de Lei n° 1.183/2019, aprovado na ALERJ e sancionado pelo governador Wilson Witzel, criando o programa de prevenção do suicídio para profissionais de segurança pública do Rio de Janeiro.

Segundo o estudo, policiais militares fluminenses têm quatro vezes mais chances de manifestar o comportamento suicida que a média da população do estado. O baixo reconhecimento social do trabalho, a exposição diária à violência, além da perda de colegas de profissão em situações de confronto e o acesso à arma de fogo são alguns dos fatores que, de acordo com a pesquisa, contribuem para a vulnerabilidade do policial.

Em 2019, o GEPEsP desenvolveu o programa EscolaQPrevine, em Duque de Caxias. Com foco na promoção da saúde emocional de adolescentes, a iniciativa forma agentes multiplicadores de prevenção às violências autoprovocadas em ambiente escolar. A Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, em Jardim Imbarie, recebeu o piloto do projeto por apresentar maior vulnerabilidade às violências autoprovocadas, de acordo com pesquisa realizada na cidade.

Em parceria com a Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC) e a empresa Comunicação & Expressão, estudantes, professores e funcionários foram capacitados e construíram um plano de prevenção adaptado às necessidades e potencialidades da escola, formando uma rede estratégica de apoio emocional. Gabriel de Deus, aluno do sétimo ano e um dos multiplicadores formados, conta que o projeto “ensina a nos importar com os colegas que estão passando por alguma dificuldade. Aprendemos a chegar nas pessoas, as formas e as técnicas, e a como entendê-las de uma maneira correta”.


País não deve alcançar metas acordadas internacionalmente

O Brasil é signatário do Plano de Ação em Saúde Mental, lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2013, em que compromete-se a reduzir 10% da mortalidade por suicídio até 2020. Entretanto, números do Ministério da Saúde revelam que país está na contramão desses objetivos.

Entre 2007 e 2017, o Brasil registrou aumento de 41% dos casos de suicídio, segundo dados do Ministério da Saúde. Enquanto a taxa mundial de suicídios caiu quase 10% entre 2010 e 2016, segundo a OMS, a taxa brasileira cresceu 28%, saltando de 4,7 para 6 suicídios a cada 100 mil pessoas, de 2007 a 2017. Nesses 10 anos, das 113.483 pessoas vítimas de suicídio, 79% são homens. Esse cenário ainda pode ser mais grave: a subnotificação de casos é grande, ligada principalmente à dificuldade em determinar a causa da morte, o que torna a dimensão real do suicídio uma incógnita.

Em 2017, o Ministério da Saúde lançou a Agenda de Ações Estratégicas para a Vigilância e Prevenção do Suicídio e Promoção da Saúde no Brasil (2017-2020), mas a presidente do IPPES aponta que os resultados ainda não foram sentidos. “Avançamos muito pouco em termos de política pública. O Ministério da Saúde precisa desenvolver ações focadas nas metas acordadas, criando um trabalho direcionado aos grupos de risco e desenvolvendo políticas públicas inteligentes”, analisa Dayse Miranda. Para ela, “a prevenção só é possível com produção de conhecimento. O IPPES se empenha no desenvolvimento de pesquisas e ações para dar subsídio ao poder público e sociedade civil na construção de iniciativas e políticas voltadas à prevenção”.